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Síndrome de Jack, o estripador

Ando me estranhando, ultimamente. A minha paciência que, historicamente, parecia infinita, dá sinais de decrepitude, quase falência. Não cheguei ao ponto de deixar as pessoas falando sozinhas e nem de fazer barraco ou ser descortês, mas tenho me irritado e argumentado muito mais do que é do meu feitio.

Diante da constatação, recolho-me para refletir sobre o que tem causado esse  estado de impaciência, com o cuidado de não colocar panos quentes nem na minha conduta, nem na de outrem.

Bem no fundo da minha alma, sei que cultivo certo desprezo por pessoas que titubeiam, que vivem na defensiva, para quem a vida é cheia de senões. Quando todo mundo está otimista, feliz, lá vem a pessoa com aquele comentário que é um balde d’água fria no entusiasmo do cristão. Está  sempre tirando o corpo fora porque o problema, o erro e a possibilidade de  risco a paralisam. Nunca quer se comprometer, não quer tomar a decisão sozinha, mesmo que seja imprescindível. O circo pega fogo e é capaz de olhar, tocar a arpa e fazer de conta que não é da sua conta. Ou lavar as mãos. Mas é ótima para mostrar o chifre na cabeça do outro.

No coletivo, pessoas assim contribuem para que os muito afoitos não saiam fazendo e desfazendo.  Reconheço seus méritos, com certeza. Mas que fico irritada, aí isso eu fico. E olha que nem sou das mais atiradas! No entanto, mesmo que eu não concorde ou desgoste de determinada ação/comportamento, procuro incentivar e parabenizar pela tentativa, pela ousadia, pela iniciativa. Admiro, particularmente, a ousadia.

Todo esse lari lari para dizer que já estou meio enjoada desse negócio de divisão do Pará. De repente, o mundo virou maniqueísta: um lado é maravilhoso, o outro é o demônio; seja o povo do SIM ou do NÃO. É um tal de sair com bandeira, fazer carreata, camisetas, festas, shows para defender sua causa. Vários pegam carona para aparecer durante as manifestações, como parte da campanha para as eleições vindouras.

Creio que, por enquanto, o Pará ainda escapará inteiro, mas não ileso. O movimento separatista continuará existindo e sendo estimulado pela migração constante e volumosa daqueles que tudo perderam no seu local de origem, mas ao qual se mantém atrelados emocional e culturalmente. Sem vínculo com as tradições e sem respeito pelo modo de vida dos  nativos, querem transformar o seu arredor numa saudosista réplica do local do qual vieram.

Cabe ressaltar que a maioria das pessoas que migram para a Amazônia pertence a base da pirâmide social, em diversos aspectos. Alguns aqui se tornaram elite política e econômica, os coronéis, os latifundiários, os donos do mundo que os cerca. Entretanto, a melhoria só se dá no aspecto material, pois a visão de mundo continua a mesma daquela dos grotões do qual saíram. O dinheiro não dá refinamento social e muito menos espiritual. Nem a escolaridade.

Sei que a questão é mais complexa do que a argumentação que embasa este desabafo, visto que é notória a ausência do Estado nessas regiões e a falta de compromisso dos nossos representantes .

Portanto, é melhor não cantar vitória pelo NÃO. Não custa muito e os descendentes do    Jack, o Estripador, colocarão seus dedinhos em ação.

De novo!

O que seria uma divisão justa?

Tem um tempo que vi, no Facebook, o mapa que coloquei aí ao lado. Segundo me disseram, é de autoria do Luiz Hass, que, por coincidência, é meu primo.

O mapa mostra, ironicamente, uma justa divisão do estado do Pará. Já que é para dividir, então, que se divida obedecendo as regiões que tem identidades particulares, além da identidade paraense, inclusive àquelas vinculados aos CTG  e TFM da vida.

Tenho apenas uma correção a fazer na proposta apresentada: a província de Cametá, orgulhosa que é do seu francês caboclo, deveria ser chamada de Etat Cameta em vez de Cameta State.

Me agonia ver tanto recurso público gasto num plebiscito sem razão de ser, do meu ponto de vista. Ainda não vi, ouvi ou li algo que valha a pena publicar do pessoal do lado do SIM que me leve a replicá-la neste blog. Por outro lado, há várias análises consistentes do povo do lado do NÃO. Apesar de ser contrária à divisão, não sou sectarista. Portanto, se alguém souber de algo interessante da banda de lá, é só me avisar que dou voz neste espaço.

Por enquanto, transcrevo abaixo mais uma análise que considero trazer  argumentos que, com elegância, levam à reflexão. O artigo é de autoria do Alex Fiúza de Mello, professor do Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais, de quem tive a sorte de ser aluna e a quem muito admiro como acadêmico. Ele é ex-reitor da UFPA; ex-membro do Conselho Nacional de Educação e do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República e atual Secretário de Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado do Pará. Quem quiser mais detalhes sobre a produção do professor, pode consultar o currículo Lattes.

O tamanho do Pará

Não é de hoje que se debate separatismo neste Estado. Há pelo menos 150 anos o tema tem sido alimentado por elites políticas locais, sob o argumento do abandono e do descaso do interior por parte do governo sediado em Belém.

Na atual propaganda política pelo “Sim”, às vésperas do plebiscito que decidirá pela divisão ou pela manutenção do atual território, a principal tese dos separatistas radica na idéia de que o Pará dividido seria mais lucrativo para todos, pois ampliaria proporcionalmente o montante dos recursos federais distribuídos pelo FPE, além de garantir melhor governança das regiões pela maior proximidade entre governos e população. No centro do debate, a hipótese de que a causa de todo o mal residiria no tamanho do Pará.

Desde o século XVIII, com a publicação das obras clássicas A Riqueza das Nações, de Adam Smith, e A Origem das Desigualdades entre os Homens, de JJ. Rousseau, sabe-se que os fundamentos da riqueza e da pobreza não repousam, tanto, na natureza ou nas externalidades materiais do entorno e, sim, na capacidade produtiva (educação, trabalho, conhecimento) e de ação política de um povo. Basta observar a constelação do mundo contemporâneo para se certificar de que gigantes da economia são tanto países de grandes territórios (EEUU, China, Canadá) quanto de pequenos limites (Japão, Suíça, Coreia); da mesma forma, economias precárias se estampam seja em pequenas como em grandes territorialidades (El Salvador e Haiti, no primeiro caso; Sudão e Congo, no segundo). A mesma lógica vale para a federação brasileira: desenvolvidos são Estados extensos, como Minas Gerais e São Paulo, e diminutos, como Rio de Janeiro e Santa Catarina; subdesenvolvidos são grandes unidades federativas, como Maranhão e Amazonas, como pequenas, a exemplo de Alagoas e Sergipe.
Portanto, não é o tamanho do território a causa do atraso do Pará, mas a baixa qualidade de sua educação, a ausência de quadros técnicos qualificados, o quase inexistente investimento em ciência e tecnologia e as condições ainda precárias de infraestrutura e logística. Dividir esta carência, sem melhorar tais indicadores, é multiplicar a pobreza; pois, nessas condições, quanto menor o Estado, maior a miséria.

A maior falácia da propaganda pró “Sim” é apostar numa maior distribuição dos recursos do Governo Federal, quando os políticos e as outras elites deveriam estar apostando na melhoria das condições da produção industrial do Estado e na formação de seu pessoal, estes, sim, fatores não-dependentes de sustentabilidade econômica. Estados que apostam, pura e simplesmente, no aumento de arrecadação do ICMS e na distribuição do FPE estão condenados, a priori, a sobreviver das migalhas produzidas pelos outros e sujeitos a retrocessos, em contextos de crise econômica.

A força do Pará é o seu território. Do tamanho atual, pelas terras continuas disponíveis, biodiversidade, fertilidade do solo, biomassa acumulada, força das águas, densidade populacional, o Estado tende a se tornar, nos próximos anos, um dos principais polos dos investimentos nacionais e internacionais, em solo verde-amarelo, com previsão de crescimento do PIB acima da média brasileira. Dividido, perde a sua grandiosidade geoeconômica e simbólica, a sua riqueza sociocultural, restando pequenos e frágeis territórios, sem maior representatividade ou peso político diante da nação e no seio do Congresso.

Em outras palavras: o problema do Pará não é o tamanho de seu território, mas de sua política. A tese de que porções menores de terras seriam mais “administráveis” que uma grande extensão territorial – ainda que individualmente mais pobres em escala produtiva – é o mesmo que confessar, de antemão, a incapacidade política de transformar essa imensa vantagem comparativa, que a natureza legou, em vantagem competitiva, imputada pelo conhecimento aplicado e pela ação política coordenada.

Nenhum estadista, com visão de futuro, abriria mão de um grande e rico território, com tamanho potencial produtivo, pois saberia que abundância de riquezas naturais é um dos fatores privilegiados em qualquer equação do desenvolvimento. Não será um número maior de governadores, deputados e senadores que garantirá a libertação de nossa histórica condição de colônia da nação. Trata-se de um mito! Fosse essa a solução, o Nordeste seria a região mais desenvolvida do país. Num contexto de populismo, coronelismo e patrimonialismo, persistente na cultura política nacional e regional – na essência, ainda não superamos a “República Velha” – dividir o poder pode significar não um ato de modernidade e de avanço republicano, mas uma atitude de conservadorismo e de atraso.

O que carecemos não é de mais Estados, mas de políticos com a estatura do Pará. Políticos que pensem o desafio paraense e regional à luz do conjunto dos problemas e dos desafios globais que se mani festam nas singularidades de cada setor e região, com suas carências e anseios sociais legítimos. Que reinventem o Estado não a partir de Belém – numa leitura centrífuga equivocada e alienada da realidade -, mas numa perspectiva do todo para as partes, com obras e políticas públicas que estruturem o conjunto das regiões e municípios numa única unidade política, articulada, interdependente e progressista. Enfim, de uma política com “P” maiúsculo do tamanho do Pará!

Sim, sem o tamanho do Pará – e, sobretudo, sem o tamanho correspondente da política – não haverá futuro nem saída para a servidão e o atraso seculares a que estamos atrelados. Não haverá salvação nem para paraenses, nem para “tapajônicos” ou “carajaenses”. Seguiremos ainda mais frágeis, atônitos, distantes entre nós, patinando na vala da história, alimentados pela mediocridade mental e pela ilusão das falsas autonomias.

Copiado de postagem no Grupo “Diga não à Divisão do Pará”, do Facebook.

Mais pitacos sobre a divisão do Pará

Está chegando a hora de decidir se o Pará manterá as dimensões atuais ou se irá ser retalhado, como o foram o Mato Grosso e Goiás, dando origem aos estados de Mato Grosso do Sul e Tocantins, respectivamente.

Sobre o polêmico assunto, recebi, por email, o artigo “TAPAJÓS E CARAJÁS: FURTO, FURTEI, FURTAREI”, do professor de História José Ribamar Bessa Freire, publicado no jornal “Diário do Amazonas”, em 9 de outubro de 2011.

Gostei do conteúdo que sustenta a argumentação do Zé e, por isso, partilho com vocês o ótimo texto, como mais um elemento para embasar o ato cívico que irá determinar o destino da “província” do, ainda, Grão Pará.

Boa leitura!

“Essa foi a vaia mais estrondosa e demorada de toda a história da Amazônia. Começou no dia 4 de abril de 1654, em São Luís do Maranhão, com a conjugação do verbo furtar, e continuou ressoando em Belém, num auditório da Universidade Federal do Pará, na última quinta-feira, 6 de outubro, quando estudantes hostilizaram dois deputados federais que defendiam a criação dos Estados de Tapajós e Carajás.

A vaia, que atravessou os séculos, só será interrompida no dia 11 de dezembro próximo, quando quase 5 milhões de eleitores paraenses irão às urnas para votar, num plebiscito, se querem ou não a criação dos dois Estados desmembrados do Pará, que ficará reduzido a apenas 17% de seu atual território caso a resposta dos eleitores seja afirmativa.

A proposta de divisão territorial não é nova. Embora o fato não seja ensinado nas escolas, o certo é que Portugal manteve dois estados na América: o Estado do Brasil e o Estado do Maranhão e Grão-Pará, cada um com governador próprio, leis próprias e seu corpo de funcionários.

Somente um ano depois da Independência do Brasil, em agosto de 1823, é que o Grão-Pará aderiu ao estado independente, com ele se unificando. Pois bem, no século XVII, a proposta era criar mais estados. Os colonos começaram a pressionar o rei de Portugal, D. João IV, para que as capitanias da região norte fossem transformadas em entidades autônomas.

O padre Antônio Vieira, conselheiro do rei de Portugal, D. João IV, convenceu o monarca a fazer exatamente o contrário, criando um governo único do Estado do Maranhão e Grão-Pará sediado inicialmente em São Luís e depois em Belém.

Para isso, o missionário jesuíta usou um argumento singular. Ele alegava que se o rei criasse outros estados na Amazônia, teria que nomear mais governadores, o que dificultaria o controle sobre eles. É mais fácil vigiar um ladrão do que dois, escreveu Vieira em carta ao rei, de 4 de abril de 1654:

Digo, senhor, que menos mal será um ladrão que dois, e que mais dificultoso será de achar dois homens de bem que um só.

Num sermão que pregou na sexta-feira santa, já em Lisboa, perante um auditório onde estavam membros da corte, juízes, ministros e conselheiros da Coroa, o padre Vieira, recém-chegado do Maranhão, acusou os governadores nomeados por três anos, de enriquecerem durante o triênio, juntamente com seus amigos e apaniguados, dizendo que eles conjugavam o verbo furtar em todos os tempos, modos e pessoas. Vale a pena transcrever um trecho do seu sermão:

Furtam pelo modo infinitivo, porque não tem fim o furtar com o fim do governo, e sempre lá deixam raízes em que se vão continuando os furtos. Esses mesmos modos conjugam por todas as pessoas: porque a primeira pessoa do verbo é a sua, as segundas os seus criados, e as terceiras quantos para isso têm indústria e consciência.

Segundo Vieira, os governadores ”furtam juntamente por todos os tempos”. Roubam no tempo presente, “que é o seu tempo” durante o triênio em que governam, e roubam ainda ”no pretérito e no futuro”. Roubam no passado perdoando dívidas antigas com o Estado em troca de propinas, “vendendo perdões” e roubam no futuro quando “empenham as rendas e antecipam os contrato, com que tudo, o caído e não caído, lhe vem a cair nas mãos”. O missionário jesuíta, conselheiro e confessor do rei, prosseguiu:

Finalmente, nos mesmos tempos não lhe escapam os imperfeitos, perfeitos, mais-que-perfeitos, e quaisquer outros, porque furtam, furtavam, furtaram, furtariam e haveriam de furtar mais se mais houvesse. Em suma, que o resumo de toda esta rapante conjugação vem a ser o supino do mesmo verbo: a furtar, para furtar. E quando eles têm conjugado assim toda a voz ativa, e as miseráveis províncias suportado toda a passiva, eles como se tiveram feito grandes serviços tornam carregados de despojos e ricos; e elas ficam roubadas e consumidas.

Numa atitude audaciosa, padre Vieira chama o próprio rei às suas responsabilidades, concluindo:

Em qualquer parte do mundo se pode verificar o que Isaías diz dos príncipes de Jerusalém: os teus príncipes são companheiros dos ladrões. E por quê? São companheiros dos ladrões, porque os dissimulam; são companheiros dos ladrões, porque os consentem; são companheiros dos ladrões, porque lhes dão os postos e os poderes; são companheiros dos ladrões, porque talvez os defendem; e são finalmente, seus companheiros, porque os acompanham e hão de acompanhar ao inferno, onde os mesmos ladrões os levam consigo.

Os dois novos Estados – Carajás e Tapajós – se criados, significam mais governadores, mais deputados, mais juízes, mais tribunais de contas, mais mordomias, mais assaltos aos cofres públicos. Por isso, o Conselho Indígena dos rios Tapajós e Arapiuns, sediado em Santarém, representando 13 povos de 52 aldeias, se pronunciou criticamente em relação à proposta. Em nota oficial, esclarece:

Os indígenas, os quilombolas e os trabalhadores da região nunca estiveram na frente do movimento pela criação do Estado do Tapajós, porque essa não era sua reivindicação e também porque não eram convidados. Esse movimento foi iniciado e liderado nos últimos anos por políticos. E nós temos aprendido que o que é bom para essa gente dificilmente é bom para nós.

Quem parte e reparte e não tira a melhor parte, é burro na arte!

Ouço esse ditado desde que me entendo por gente e agora ele se torna bem apropriado para comentar o tal do plebiscito que acontecerá em setembro, para sabermos se o Pará vai ser dividido em três pedaços de terra sem lei. Melhor dizendo: com lei demais e aplicação da lei de menos.

Enoja-me falar dessas coisas, mas me enoja mais ainda a omissão. Sou adepta da seita do Dr. Luhmann e não acredito que se possa mudar o sistema, se a mudança não for favorável  à manutenção do próprio. Por isso, medidas paliativas, reformadoras, dão muito pouco resultado. A revolução, por outro lado, só muda a ideologia de plantão. Todos querem se dar bem e ter seu quinhão de poder e de vantagens. Os defeitos humanos não são inerentes a esta ou aquela ideologia; estão em toda parte em que o bicho humano está presente.

Então, o que fazer, desistir, deixar para lá, ser nihilista?

De jeito nenhum. Não se pode mudar o mundo, nem o outro, nem a nós mesmos. Mudar, transformar são palavras bonitas e motivadoras. Servem para isso, para motivar. Temos uma escolha importante a fazer. Podemos decidir pensando em algo para além do nosso conforto, do nosso prazer, da nossa proteção. Decidir com responsabilidade. Tomar uma atitude que olhe para um pouco mais que o buraco do seu umbigo.

Não estamos vivendo um momento de carência absoluta das condições materiais. Sei que existe muita miséria e indigência, mas acredito que a maioria das pessoas, neste Estado, tem o que comer e onde dormir.  Em que condições, é outra história. Aliás, nossa história é uma história de carências e de saque.  Quem vem de fora (meus ancestrais vieram) sempre toma alguma coisa. Falo dos sedentários, pois  os nômades, por sua natureza, vivem disso, da exploração do local e busca de outro a explorar. Pensando bem, somos todos nômades, todos exploradores. Mas também capazes de atos altruístas e de partilha.

Aqui reina um tipo de miséria que é muito pior que a economico-financeira, que é a miséria da falta de responsabilidade, do pouco caso, da omissão genética, do paternalismo populista e do protecionismo da ignorância. Falo assim, porque as pessoas parecem não criar compromissos reais com a terra, com o local, com a vizinhança. Nem nossos representantes assumem essa resp0nsabilidade, sejam em sindicatos, movimentos ou em outras esferas políticas. Cheguei a um ponto que gostaria de poder, ao menos, dizer: ele rouba mas faz. Aqui só se rouba, descaradamente.

Depois de muito tempo consegui entender que, na vida, tudo são relações. Burocracia, leis, normas de conduta, convenções servem para ajustar a vida social. São instrumentos para as relações, instrumentos para o bom convívio. Mas, para que funcionem, é indispensável que as relações sejam pautadas numa cultura da responsabilidade.

Creio que ultrapassamos o momento de basear a vida no individualismo, consumismo e na psicanálise. Eles podem explicar a nossa sociedade, mas não a tornarão melhor do que é, posto que estimulam a reprodução de suas mazelas.

Por isso, tanto faz se o Pará se tornará três. Três vezes mais corrupção, três vezes mais roubo, três vezes mais absurdos. Se o Pará é o caos e o desmando que eu vivencio, todo dia, pouco se me dá o seu tamanho físico.

As pessoas de bem, que ainda se indignam com isso tudo, é o que me importa. É delas que eu quero estar perto. Seja aqui, no Carajás ou no Tapajós.

Dividir para dominar

Em meio à tosse e ao pedaço de pudim de pão que fiz hoje de tarde, escutei um comentário sobre a divisão do estado do Pará.  

Um assunto assim amargo só pode mesmo ser tratado a peso de muito pudim. Lá vou eu buscar mais uma fatia…

Poderia dizer que é falta do que fazer, mas sei que não é. Trata-se de esperteza, com grandes doses de oportunismo e algumas pinceladas de ingenuidade, como toda armação sinistra. Gente que divide tudo, para dominar os incautos.

Não falo nem por bairrismo, nem por tradição, nem por viés afetivo algum. Simplesmente, não consigo compreender a urgência do assunto. Devo ter um QI muito baixo para entender safadezas desse tipo. Há tanto o que fazer, recursos para fazê-lo, só falta vontade política e disposição para o trabalho.

São tantos desmandos, desperdício, má gestão, falta de comprometimento, sem falar da corrupção enraizada e generalizada, coroados com o desmazelo característico dos governantes locais. Aqui não se pode falar nem o velho jargão do “rouba, mas faz”. Eles roubam, desviam, locupletam-se, abusam, e nem chafarizes decentes fazem. Talvez uma pintura de asfalto aqui, uma pracinha meia boca ali, cursos e viagens de treinamento desnecessário para o funcionalismo (porque não há treinamento), aumento de salários para calar a boca do povo, etc. Total desrespeito com os poucos mortais que ainda se indignam com as péssimas notícias que são veiculadas todas as horas, todos os dias, entra ano, sai ano.

O dia a dia nos joga na cara a falta de vergonha dos governos de hoje, ontem e de antes de ontem. Precisa-se de generosas reservas de paciência e tolerância para não surtar, enlouquecer de vez, e praticar um atentado. Até eu, uma pacata dona de casa, avó, estudiosa empedernida, pego-me com vontade de me tornar uma mulher-bomba.

A água que sai de nossas torneiras é cor de ferrugem, por causa do precário estado das tubulações, antiquíssimas, da época do Antonio Lemos. A rede de esgotos é ínfima. Ande pela cidade e veja como estamos cercados de valas por todos os lados. Valas fétidas. No Reduto, então, tem momentos que parece estarmos num banheiro daqueles de fundo de quintal, como nas fazendas do princípio do século XX. Um horror!

E a educação? Uma tristeza, seja no Ensino Fundamental, Médio ou Superior. Nem vou falar dos profissionais do ensino, porque vou apanhar. Toda categoria é corporativista. Com os professores, não seria diferente. Causa-me dor conversar com muitos desses docentes, tão tacanha e restrita é sua visão de mundo e do processo ensino-aprendizagem. Muito discurso psedo-socialista e nenhuma prática efetiva.

Coitada da Saúde! Para ter ideia do estado terminal em que se encontra, recomendo ir a um posto de saúde ou dirigir-se ao Pronto-Socorro Municipal quando precisar de atendimento urgente. Se o atendimento dado nos hospitais conveniados a planos privados de saúde já é de baixa qualidade, pense no que te espera no setor público.

Ainda preciso falar da nossa INsegurança Urbana, porque segurança é excessão e não regra no cotidiano das cidades paraenses. Não tem essa de interior ou capital, está tudo dominado pela bandidagem de colarinhos de todos os tipos e cores. Bandidos Igarapé Fashion Weeks.

Na periferia e nas cidades do entorno de Belém pululam as “ocupações”, denominação politicamente correta das invasões dos terrenos públicos e privados. Sei que tem muita gente honesta e que precisa utilizar deste expediente para viver, mas sabemos que também existe a indústria da invasão da qual fazem parte sujeitos da escória da sociedade. Repete-se o caso do tomate podre, que estraga todo molho. Uma ocupação destrói o ambiente físico e social no qual se instala. Culpado? Ausência do Estado. Leniência do Estado.

Vivemos enclausurados, fechamo-nos numa ilha imaginária de bem-estar comprado por preços exorbitantes, rodeados de miséria humana por todos os lados. Olhem no Google Earth e verão que nossas casas tem grades sobre grades nas janelas, nas portas, nos telhados. Acho que por isso gradeei até meu coração. Mas isso já é outra história, outro tipo de bandidagem.

O código de posturas não se pôs, não se põe e nem se porá: a orla da cidade está repleta de arranha-céus transformando a paisagem e a temperatura local. As calçadas e ruas são ocupadas por cadeiras de bares, lava-jatos, servem de estacionamento e para todo tipo de atividade comercial autônoma.   Somos uma panela de pressão prestes a explodir. O público é entendido como a “casa da mãe Joana”, pode-se fazer o que quiser. Lamento informar, mas parecemos uma cópia do estereótipo do carioca, que “se acha” e quer sempre se dar bem. Só não achamos que somos o centro do mundo. Pelo menos, somos menos míopes.

Belém, pobre rica Belém, como metrópole do Pará, é um exemplo de desmando geral e irrestrito; um reino de absoluta impunidade.

Gostaria de saber, sinceramente, quais as reais vantagens que a população em geral terá com a repartição do Estado. Os exemplos de Goiás e de Mato Grosso não me entusiasmam. Morei em Goiás, andei pelo Belém-Brasília desde que foi aberta,  e a população das cidades do Tocantins atual continuam dependendo dos serviços de Goiânia. O pessoal do Mato Grosso do Sul  ainda migra para São Paulo ou para Curitiba para sanar suas necessidades de saúde e educação de qualidade.

Sei que pintei um quadro dantesco da minha região. Mas amar de verdade é isso: ver os defeitos e ajudar a minimizá-los, com firmeza. Fechar os olhos, NUNCA!

Ah! Comi todo o pudim.