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Espelho, espelho meu!

Dia desses comentei sobre reformas estéticas e, a partir daí, vira e mexe me pego pensando no assunto. O que me impede ou o que me impele a mudar minha aparência física?

Atualmente preciso melhorar minha autoestima. Não adianta eu tentar me convencer de que o que interessa é a beleza interior, porque esta eu tenho para dar, vender e leiloar. Mas o espelho é implacável. Tem sido implacável há uns trocentos anos. Nada tem a ver com os “enta”. A crueza da imagem refletida começou aos dezesseis anos.

Eu era uma adolescente “normal” do início dos anos 70. Alienada como eu só! Jogava basquete, estudava o Científico em Ciências Matemáticas, sonhava em ser geóloga e nem de perto passava pela minha cabeça a idéia de casar e ter filhos. O problema era ser, digamos, perigosíssima. Depois que debulhei-me em lágrimas quando me arrancaram o primeiro beijo, adotei o ato de beijar como meu segundo esporte favorito, depois do basquete, é claro. Adorava beijar os amigos, inimigos, conhecidos. Era só existir simpatia e confiança, pintar o clima e pronto. Para uma moça com um jeito tão angelical, eu era “dada” demais.

Esse temperamento efusivo teve consequencias severas. Pedra dura em água mole… Pois é, fiquei grávida e casei. Quando minha mãe me contou que eu estava gestante, tive um ataque histérico. Chorava e gritava, descabelada, que eu não queria ter filhos, que não era possível, porque estava acontecendo aquilo comigo e outras sandices.

Meu mundo desabou e meus sonhos idem. Eu sabia exatamente o que eu tinha feito e tinha certeza que a vida iria mudar radicalmente, para pior. Gostaria de voltar no tempo e ter sido menos afoita, menos apaixonada, menos irresponsável. Não havia como mudar o destino que eu escolhera para mim.

Seis meses depois, trinta e cinco quilos mais gorda, minha filha nasceu. Uma menina linda, magrinha, roxinha, caladinha. Quando começou a chorar não parou mais. Foram noites e dias sem dormir. Eu querendo a “morte”. Adolescente ama dormir e mami fez com que eu me arrependesse amargamente da minha arte. A vingança foi maligna. Ajuda mínima, para eu ver o que era bom pra tosse. A sogra, graças aos bons espíritos, foi uma verdadeira avó para mim. Entendeu a criança tola e perdida que eu era, aturava minhas doidices e me permitia algum descanso, aos fins de semana.

Talvez por isso e também por isso que as marcas psicológicas da gravidez precoce tenham sido superadas. Com pouco tempo, nem me passava pela cabeça que minha vida poderia ser melhor sem meu marido e minha filha. Vida dura, vida de pobre, sem bolsa família, bolsa fralda, bolsa leite ou qualquer outra bolsa social. Só não fui rodar bolsinha porque o maridão tinha 21 anos e eu mal dava conta dele. Não sobrava energia para trottoir.

Mas as marcas físicas continuaram a incomodar. Num dia, eu era uma moça, no auge da juventude, pele branca sedosa, seios fartos,  de uma beleza suave, quase clássica. No outro dia, estava eu com tudo jogado da prateleira, quase no chão, cheia de estrias e com muitos quilos a mais. Um filme de terror!

Recolhi-me e entreguei-me a um desânimo tal, que hoje vejo que tive depressão pré-durante-pós parto. Depressão que durou alguns anos. No entanto, eu nem imaginava que estava deprimida. Só me sentia desanimada e não conseguia olhar para mim mesma. Não havia possibilidade de me entregar à melancolia, com filho para criar.

Minha sorte, grande sorte, foi ter tido um marido que realmente me amava. Em nenhum momento ele se mostrou incomodado com meu visual madona destruída. O amor dele não era suficiente.

Os anos foram passando…

Assim que cumpri minha missão de provedora em todos os sentidos, dei-me de presente a cirurgia estética que eu ansiava desde os quinze anos. Aí, eu já ia completar trintinha. Acho que as estrias tinham tomado conta do meu cérebro.

Cirurgia plástica melhora a aparência, mas não faz milagre. Eu julgava que ia ter meu corpo de volta, com a vantagem de ser uma mulher balzaqueana, com um bom emprego, e muitas possibilidades de usufruir daquele corpinho tão almejado. Não foi bem assim.

Nesta altura da vida, sei que preciso entrar em reforma. No entanto, de nada adiantará modificar o corpo, se a rejeição por mim mesma está marcada na alma. É ela que precisa de tratamento cirúrgico.

Sem dramas ou tragédias.