O outro lado da moeda

Nada de drama. Que graça tem alguém do seu lado sob chantagem, gravidez, dinheiro, recessão de família? O legal é alguém que está com você por você.  E vice versa.

De uma forma geral, as mulheres reclamam demais do comportamento dos homens no início, no meio e no fim das relações afetivas. Já fiz parte desta patota, mas hoje entendi que homens e mulheres são seres de “espécies” diferentes e não gêneros de uma mesma espécie. Há diferenças biológicas, é fato, mas essas são a parte mais gostosa do todo. O entrave está no aspecto sócio-cultural. Aí é que a porca torce o rabo!

O que causa o descompasso é a idealização, baseada num tipo ideal de comportamento homem/mulher que aprendemos socialmente, e que gera expectativa e desconforto com a atitude do outro. Ou se fica ligada muito no que se quer, na nossa carência, e na forma como ele “deve” agir para supri-la, ou na carência/necessidade dele, e o que se pode fazer para torná-lo o ser mais feliz do mundo. Tem gente que é tão pirada que bate tudo isso no liquidificador e investe tanto no ideal que esquece de viver a realidade. E quando a realidade cai em cima de si, sem piedade, considera-se enganada, usada, e a pessoa mais infeliz do mundo.

Conheço várias mulheres que fantasiam demais com o que acontece num primeiro encontro e já esperam um relacionamento a partir daí. É ir com muita sede ao pote, até para mim, uma quase sexagenária. Hoje em dia, ninguém é obrigada “a dar” ou  não “dar” para o cara de primeira. Pode-se deixar fluir o desejo, se ele se manifestar; o receio, se ele acontecer; e a repulsa, se, por desgraça, for esse o resultado do contato. Tudo de forma sutil/leve, por favor, pois estamos ainda conhecendo a pessoa e vice-versa.

Também você pode ligar para o dito cujo no dia seguinte, se for sua vontade. Não tem porque ficar ansiosa esperando o movimento de lá, se você pode pegar o celular e dizer o que quer, nem que seja só um oi. Sem pressão. Nada de achar que o homem é que tem que tomar a iniciativa; se a mulher continuar a pensar assim, nunca vai ser dona de si mesma. Nada também de já imaginar  ”um amor e uma cabana”, casamento e filhos. Se o cara falar nisso, não se iluda, pois é só viagem ou poesia. É raríssimo uma paixão à primeira vista; pense nos 99.9% das vezes que isso não acontece. É provável que o seu acompanhante esteja no segundo bloco de probabilidades.

Depois do primeiro movimento, agora é a vez dele, gatinha. Se ele não retornar, toque sua vida. Nada de ficar esperando, porque vais esperar sentada. Nada de ligar e cobrar um posicionamento; afinal, estão só se conhecendo e parece que você não gostou do comportamento dele. Então, cabe a você descartá-lo ou não levá-lo a serio. Anote o nome dele na sua agenda, que poderá ser uma companhia agradável quando você não tiver nada para fazer. Se ele ligar e você já havia se programado para fazer outra coisa, inclusive dormir, dispense; só saia ou encontre se isso vá te dar prazer e bem-estar. Sem compromisso, é óbvio. É assim que eles agem, o que torna a vida muito mais tranquila e saudável.

Tá certo, você conseguiu fisgar o moço e ele conseguiu fisgar você. Vão ser felizes por um tempo, quem sabe até casar, mas um dia a relação pode acabar, como tudo na vida, não é?

Se for arrancar os cabelos, faça-o sozinha ou em companhia de pessoas de absoluta confiança, isto é, NUNCA na frente do deixante, apesar de ser este o impulso primeiro. Se o fizer, os únicos sentimentos que causará são pena, culpa e raiva, porque reacender o amor não é possível, da mesma forma que não se ressuscita morto. Como disse Arnaldo Jabor, “o legal é alguém estar com você por você”. Qualquer outro motivo só fará você se desprezar e causar desprezo.
O mais importante de tudo que falei é que nunca é tarde para erguer a cabeça e seguir com a vida, mesmo que você tenha armado o maior barraco e se humilhado e exposto de forma exponencial.
Só se aprende errando. As recaídas são humanas assim como o levantar. De novo, novamente, outra vez.
A decisão do que fazer e as consequências do seu ato são suas, de mais ninguém. Ele está noutra, acredite.


Como deixar de amar alguém II

Quando olhaste bem nos olhos meus e teu olhar era de adeus… (Chico Buarque, Atrás da porta)

Ultimamente tenho recebido muitos depoimentos sobre dramas de amor, geralmente postados no texto Como deixar de amar alguém?, que escrevi  em julho de 2011. Quase um ano depois, creio que tenho algo a dizer sobre este assunto, porque me sinto curada do que, um dia, julguei ser um grande amor.

Quem acompanha este blog desde sua criação deve estar se perguntando como consegui tal proeza. Creio que, acima de tudo, foi ter sentido o “adeus” definitivo no olhar do ser amado. Tive, então, que me armar de todos os argumentos, artifícios, desculpas e condições para me manter a salvo do meu desejo de querer a ele mais que tudo. Foi preciso construir uma real vontade de deixar de amar por sentir (mais que entender) que não valia a pena investir meu sentimento naquela direção. Tudo o que vinha de lá apenas me fazia mal. Como poderia amar o que me fazia tanto mal?

Esta passou a ser a questão orientadora dos meus pensamentos, palavras e atos a partir de então. Toda vez que eu me pegava saudosa da companhia dele ou enternecida com palavras ditas ou que a dor da lembrança me deprimia, deixava fluir o sentimento, não o negava, mas não me entregava ao mal-estar. Ao mesmo tempo, ocupava minha mente em identificar o que de ruim havia acontecido no período a que a saudade me remetera e o “preço” que eu havia pagado para viver aquele agradável momento de (in) satisfação.

Foi incrível como percebi que os reais bons momentos eram menos frequentes do que eu supunha e que, em sua maioria, eram sustentados por sofrimento sublimado. Dei-me conta, desolada, de a quanta violência psíquica me submetera, o que denotava meu estado preocupante de loucura. Doença que não foi causada por ele, mas que serviu perfeitamente para manter nosso relacionamento por anos e anos. Uma simbiose perfeita: um bipolar egocêntrico e narcisista e uma fóbica  obsessiva.

O processo de deixar de amar foi longo e doloroso, sujeito a inúmeras recaídas e subsequentes recomeços. Mas não desisti porque era minha única saída para continuar a viver, para tornar a viver. E eu queria (mesmo não querendo) superar a dor da perda e ser feliz. Feliz de verdade, feliz por mim e por tudo e todos que me cercam e não somente por ter alguém como fonte de felicidade.

Enfim, concluí que o único caminho para a real libertação do jugo do amor doentio é querer, com toda a alma e todo o ser, deixar de amar. Perseguir esse objetivo disciplinadamente, firmemente, pacientemente. Se você está frágil e insegura, mantenha distância absoluta e radical; mas se sente-se fortalecida, o contato é necessário para destruir o mito.

No que se baseava o mito que criei? No amor incondicional fundado na insignificância do outro, na sua extrema carência, no empenho sobre humano de suprir essa falta para me tornar indispensável. Se ele era (ou se encontrava) no limbo e eu o ajudei, se só eu via a preciosidade que ele era, escondida sob a má conduta e o descaso com as pessoas, maior a probabilidade de um amor substantivo.

Estive disposta a pagar qualquer preço para vê-lo feliz e confortável, mesmo que isso me fizesse perder a identidade e a autoestima. Paguei o preço e nem me tornei insubstituível e nem o mantive ao meu lado.

Porque nada garante o amor do outro, nada garante o seu empenho, nada garante a disposição para ser dedicado e fiel. Depende do caráter da pessoa e quando a vida pregressa demonstra claramente que ela o tem duvidoso, com você não será diferente. Mais dia, menos dia, de acordo com a conveniência dele, irá tripudiar de você também.

Por isso, se ele quiser ir embora, deixe-o ir.  Diga-lhe o que sente (é seu direito), mas não se humilhe, não se exponha, nada peça. Ele só atenderá se for conveniente para mantê-la de “reserva” para os momentos de tédio e solidão futuros. Tudo o que você fizer para segurá-lo, só vai estender a sua dor, porque ele não está mais ali…

Portanto, menina, não se iluda mais. Viva o seu luto e tome providências objetivas para deixar de amar. Se você estiver convicta disso, saberá o que fazer.

Mas, cá entre nós, sempre vai sobrar um cadinho de despeito… que não tem nada a ver com amor. Garanto.

O que é perder tempo?

Será que é tempo
Que lhe falta para perceber?
Será que temos esse tempo
Para perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara
Tão rara… (Paciência, Lenine)

Tenho cá para mim que viver sofregamente o hoje nos impede de vivê-lo. Paradoxal? Nem tanto, apenas uma conclusão simplória ao escutar Lenine afirmar que “a vida não para”, como  não parava o tempo do Cazuza e como não param meus pensamentos.

Ansiedade gera angústia e alguém angustiado não tem como se permitir a fruição. Falo isso com conhecimento de causa, porque sou uma ansiosa juramentada e com um novo e surpreendente diagnóstico da minha terapeuta: Fobia Social. Bingo! A ansiedade é sintoma e não o cerne da questão.

Talvez por isso tenha um problema cármico com o tempo. Sinto fisicamente ele se esvaindo, a vida passando e eu aqui, parada, “com a boca cheia de dentes, esperando a morte chegar…”  É uma insatisfação permanente com o agora, como se o  vivendo estivesse sempre aquém do que poderia ser.  Ou estou no pretérito imperfeito ou no futuro do pretérito, nunca no gerúndio.

Tenho me dedicado a aceitar com alegria o que me acontece, no ato do acontecido. Não quero mais, depois, constatar o quanto era bom, o quanto era terrível, o que poderia ter  sido se eu tivesse agido como minha intuição me gritava e para a qual amiúde fiz ouvidos moucos.

 O tempo, que se perde reconstruindo o passado ou planejando o futuro, é tempo perdido. O tempo, que se investe em quem não tem tempo pra gente, é tempo perdido. O tempo, que se gasta para acomodar as vaidades, ainda que sejam as nossas, é tempo perdido. O tempo deixado na amargura, no despeito, na vingança, na inveja, é tempo perdido.

O tempo usufruído é aquele em que a música ilumina a vida e a alma sorri.

É o que sinto quando ouço Lenine.

Cenas de um casamento

O homem acariciava ternamente as costas da mulher enquanto ela pousava a mão sobre o joelho dele, dando leves tapinhas.Conversavam e sorriam de maneira bem jovial, sentados no banco da praça.

Fiquei observando durante algum tempo aquela cena tão incomum nos dias de hoje. Casamentos duradouros já são difíceis de encontrar e, mais ainda, aqueles que expressem harmonia e bem-estar depois de uma vida em comum, no caso, quase cinquenta anos. Fiquei comovida com o que via e despeitada pelo que o casal tinha conquistado. Meu sonho, ali, materializado.

É impressionante como temos a tendência de nos ater ao aqui e agora. Eu me deparava com um recorte da realidade, uma pequena parcela de toda uma existência, e já julgava estar diante de um amor “verdadeiro”, bem diferente daqueles que eu vivenciara.

Santa ingenuidade! Sei que a percepção descrita foi muito breve, antes que a racionalidade objetiva tivesse tempo de se imiscuir no meu enlevo e me trazer à realidade. No entanto, minha reação inicial mostra que as idealizações de relacionamento continuam fortemente gravadas na minha visão de mundo. A espontaneidade do primeiro impulso diz o que se deseja.

o sentido anti-horário também é válido

Almejar algo que não existe pode não ser tão grave quando se tem consciência da idealização. Casamento não é o mesmo que amor conjugal, embora, tanto um quanto o outro exijam compromisso e postura ética entre as partes envolvidas.  Sem confiança e respeito, o amor é uma farsa, é mero instinto de posse. Não se engane não, pouco resistirá às intempéries da vida.

Toda e qualquer relação social está firmada em contratos mais ou menos tácitos, em que a confiança é fundamental, por diminuir a tensão inerente às nossas expectativas do comportamento do outros diante das contingências do dia-a-dia. A pessoa pode, assim,  relaxar e investir sua energia positivamente. O respeito, por seu turno, sedimenta a confiança e a ela está atrelado, como parte indivisível de um “encontro” bem sucedido.

No casamento não poderia ser diferente. Portanto… Àquela cena bucólica da praça era a representação de um dos muitos casamentos que o casal vivera. Quantas mágoas, infidelidades, desencontros e turbulências mil eles tiveram que superar para usufruírem daquele momento e de outros que, certamente, hão de ter vivido e ainda viverão.

Isso mesmo, a gente casa e separa muitas vezes do mesmo cônjuge enquanto está vivendo junto, mesmo que essa “separação” aconteça apenas dentro de nossa cabeça. Há períodos em que o outro nos parece insuportável, em que o olhamos e pensamos: meu deus, queria mandá-lo para o inferno; não aguento mais! Em outras ocasiões, nos percebemos absolutamente apaixonadas pelo marido, com um revival de emoções adolescentes, recheadas de planos para o futuro. Entre os dois extremos, há o casamento propriamente dito, traduzido no companheirismo confortável e amoroso de todo dia, que nos fortalece.

Portanto, os altos e baixos de um casamento são reais e esperados, refletem uma relação viva, dinâmica, que pode acabar ou não, dependendo do tamanho e intensidade do querer. Isso é possível, enquanto há confiança  e respeito. Na ausência deles, o que vemos são são mortos-vivos culpando e punindo um ao outro pelo que “acham” que sofreram ou pelas oportunidades que perderam. São aquelas pessoas amargas, pessimistas e invejosas, partícipes de arremedos de casamentos, com quem nos deparamos com frequência.

Não existem soluções mágicas, nem artifícios para um casamento amoroso verdadeiro. Criar situações que mantenham a relação (como filhos, por exemplo) são paliativos efêmeros, que não tem a efetiva capacidade de substituir o empenho pessoal de “amar e respeitar até que a morte (do amor e do respeito/confiança) os separe.

Ex my love!

O brega da Gaby Amarantos não me sai da cabeça. Desde Moscow (Mosqueiro, para os antigos), não paro de cantarolar “ex my love, ex my love, se botar teu amor na vitrine, nem vai valer 1,99″. O refrão da música é típico de pessoa despeitada. Como aqui é o diário da mulher despeitada, fica bem apropriado comentá-lo, a partir das minhas malfadadas experiências.

Lógico que lembro dos meus ex quando escuto a musiquinha. A Gaby tem razão, porque uns e outros não valem nem mesmo um tostão furado; consequentemente, amor de quem nada vale, vale nada. E não é despeito não, é a constatação da mais pura racionalidade instrumental. A gente come cada coisa nesta vida que, depois da indigestão, fica pensando onde é que estava com a cabeça. No meu caso, nem posso dizer que quem comandava era a cabeça de baixo, porque não a tenho. Na verdade, tanto o amor quanto o despeito nos deixam cegos. Solamente eso!

Estou há muito tempo sem sentir amor romântico e posso garantir para vocês que é uma experiência muy buena e enriquecedora. Dá-nos a chance de perceber a dinâmica do mundo de forma abrangente, olhar ao redor com mais cuidado, prestar a atenção aos detalhes e, principalmente, sentir-se espontânea para ser o que se é.

Se amar o outro e conviver ajuda amadurecer e o autoconhecimento; ficar só nos coloca diante de nós mesmos, das inseguranças, carências e medos, mas também permite descobrir a força, a suficiência, a liberdade de escolha e a exercer a autonomia. Ambas as situações, se bem exploradas, geram bem estar e crescimento. Apenas é mais dificil manter o estado de graça quando se está acompanhada, porque a harmonia e o bem estar vão depender disposição e da determinação de duas ou mais pessoas.

É muito dificil conciliar interesses, gostos, paixões, quando se ama alguém. A tendência é ceder para evitar o conflito, para manter o idílio. Quando um lado cede mais que o outro, começa o desgaste. Para o amor, é “melhor” a tempestade permanente do que a calmaria da negação, porque esta última esconde tirania, opressão e frustração.

Quando teu parceiro não dá mais o conforto da confiança, quando deixa sinais de querer ciscar (ou já está ciscando) no galinheiro do vizinho, não despiste e nem faça ouvido de mercador. Tapar o sol com a peneira não resolverá o problema, ainda que o cara fique com você. Nada de brigar ou fazer barraco, apenas  sinalize que não quer desempenhar papel de idiota, mostre que você está “na parada“.  Se o aviso não surtir efeito, queridos, lamento, mas é hora de cantar o refrão da Gaby e tirar seu time de campo. De cabeça erguida. Afinal, tudo que começa tem fim.

Palavra de quem confundiu lata com ouro.

A aparência é parte da verdade

A frase do título foi dita pelo professor Ricardo Antunes, durante sua explanação sobre a tese que estávamos avaliando. Falávamos sobre os Círculos de Controle de Qualidade (CCQ) que, ao incentivar a criatividade e colaboração dos empregados para melhoria do processo produtivo, apropria-se do saber-fazer do trabalhador sem remunerá-lo pela assessoria. E, o mais interessante, é a gratidão que expressam pela oportunidade de apresentar suas sugestões e de experimentá-las, mesmo que venham intensificar seu trabalho. É o processo que o aluno João Santiago definiu como “mais-valia qualificada” e que Antunes denominara de “cooptação da subjetividade do trabalhador”, característica basal dos tempos flexíveis do capitalismo.

Não vou continuar sociologando, nem cutucando o Dr. Karl onde ele estiver. O que me intrigou foi constatar que eu nunca pensara sobre a aparência dessa forma, como parte da verdade. Talvez como parte do todo sim, pois aparência e essência se completam em um ser ou em uma coisa. Mas parte da verdade… caiu a ficha.

Meu Tico e Teco ficaram brigando a partir desse momento. O que se aparenta ser, também é o que somos. Não é tudo, mas é parte. Então, a atitude segura, incisiva e determinada que as pessoas veem em mim faz parte de mim, não é só uma representação. Sou também assim. Da mesma forma que a timidez, a covardia e a insegurança também estão aqui, completando o que sou. Contenho, cá na minha cabeça, nas minhas entranhas e na exterioridade, a essência da dialética. É mole?

Não vou usar meu colírio alucinógeno, como o Macaco Simão, porque não preciso de aditivos para viajar. Minha mente voa, voa e mente, constantemente, freneticamente, dialeticamente. Voa tanto, que gasta minhas energias e me faz ficar prostrada em casa. Preguiça? Não é não, juro, é exaustão mesmo.

Depois de dez dias devorando um trabalho de mais de 400 páginas, para o qual tive que estudar bastante o velho Marx e seus discípulos, constatei que amadureci intelectualmente. Quando percebi que tudo o que eu havia escrito “batia” com as observações de uma fera em marxismo, senti-me gratamente feliz comigo mesma. O dever cumprido e o trabalho bem feito valeram a pena e me proporcionaram a sensação de plenitude de quem faz o que gosta e porque gosta. E faz bem.

Estou chegando onde queria e para o que me empenhei tanto. Em minha casa, reinam o amor, a amizade, o companheirismo, a cordialidade, a constância, o equilíbrio, a alegria, os risos, o bem-estar, a saúde, a beleza. Por mais que a aparência, muitas vezes, seja de caos. O caos da vida é absorvido quando se vive em harmonia, quando se está disposto a compreender e aceitar.

Acima de tudo, mantenho a paz em minha vida. Isso não tem preço.

Deixo a vida me levar?

Todo mundo tem seus problemas e eu tenho os meus, claro. Mesmo vivendo um período de harmonia em casa, de sucesso profissional, de bem-estar e de tranquilidade como jamais tive, ainda assim, a ansiedade toma conta de mim, provocando noites mal dormidas e outras mazelas.

Quando começo a ficar demais dispersiva, reflexiva e agitada, acende o sinal de alerta. Estou fazendo acompanhamento médico, mas não posso esperar que terapia e remédio vá mudar totalmente a estrutura de minha  personalidade. Esses elementos externos me dão o suporte para que eu me fortaleça e consiga, devagar, perceber aquilo que não posso resolver, diminuir a rigidez de comportamento e administrar a necessidade que tenho de controlar a minha vida e a vida dos outros significativos ou não.

É verdade. Um dos sintomas é pensar toda hora em como seriam as coisas se eu tivesse agido assim e assado, como prever como fulano e sicrano vão agir para que eu me prepare para atenuar consequências das ações alheias. Para diminuir a tensão, desvio o pensamento para a mudança das coisas materiais que estão ao meu alcance. É a hora em que priorizo e me dedico a resolver todos os problemas da casa, e, se não for o bastante para tomar o meu tempo e cansar a mente, passo a imaginar mil e uma reformas no sítio, no AP de Curitiba, no prédio onde moro e até no sistema de trânsito de Belém.  A mente acelera tanto que me dá frenesi.

Pois é, imaginem como é para uma pessoa como eu ver quem gosto (ou por quem sou responsável) fazendo m.  Invariavelmente, sei que vai sobrar para mim, que o estrago vai me atingir, quer eu queira, quer não. Caberia ao “possivelmente” atingido (eu) tomar as precauções necessárias para se proteger, por mais que essas atitudes/ações venham a melindrar aquele que está tascando caca no ventilador.

Aí que mora o problema… coragem para fazer o que é preciso, para confrontar o outro, para falar claramente da minha insatisfação e preocupação, de estabelecer condições, quem disse que eu tenho? Fico “remandiando”, procurando justificativas, abafando o “causo”, criando uma historinha de ajuda, tolerância e abnegação. Pura covardia…

A panela vai fervendo, até que, em horas inoportunas, mando tudo para os quintos dos infernos e fico “histórica”, cavando situações do arco da velha para jogar na cara do folgado ofendido. Quem fica mal, ao final de tudo, sou eu.

Para uma analisada, consciente de suas fragilidades e medicada, ajo de forma imprudente e inexplicável. Nem de noite tenho paz; meus sonhos passam a refletir as energias ruins que estão se acumulando. Ficam confusos, atrapalhados, angustiantes. Trazem antigas situações incômodas não elaboradas e as junta com o abacaxi de agora. A “cabecinha linda de cabelos d’ouro” não tem um minuto de sossego.

Consciente do meu estado e sabedora que somente eu poderia dar um jeito nisso, larguei a tese que estava lendo, coloquei minha netinha ao meu lado e fiquei cantando para ela dormir. Fui me desarmando, a mente ficando mais quieta, o corpo relaxando. Pensei em situações agradáveis. Reconheci o quanto sou feliz e senti-me grata ao universo por isso. Dormi.

Não foi um sono tranquilo, entretanto. Vaguei por muitos lugares, tive conversas desgastantes com as pessoas-chave dos problemas atuais e solucionei, em sonho, muitas das neuras em que eu mergulhara. Acordei hoje sabendo o que fazer. E vou fazer,  no seu devido tempo.

Não vou deixar a vida me levar…