Quando olhaste bem nos olhos meus e teu olhar era de adeus… (Chico Buarque, Atrás da porta)
Ultimamente tenho recebido muitos depoimentos sobre dramas de amor, geralmente postados no texto Como deixar de amar alguém?, que escrevi em julho de 2011. Quase um ano depois, creio que tenho algo a dizer sobre este assunto, porque me sinto curada do que, um dia, julguei ser um grande amor.
Quem acompanha este blog desde sua criação deve estar se perguntando como consegui tal proeza. Creio que, acima de tudo, foi ter sentido o “adeus” definitivo no olhar do ser amado. Tive, então, que me armar de todos os argumentos, artifícios, desculpas e condições para me manter a salvo do meu desejo de querer a ele mais que tudo. Foi preciso construir uma real vontade de deixar de amar por sentir (mais que entender) que não valia a pena investir meu sentimento naquela direção. Tudo o que vinha de lá apenas me fazia mal. Como poderia amar o que me fazia tanto mal?
Esta passou a ser a questão orientadora dos meus pensamentos, palavras e atos a partir de então. Toda vez que eu me pegava saudosa da companhia dele ou enternecida com palavras ditas ou que a dor da lembrança me deprimia, deixava fluir o sentimento, não o negava, mas não me entregava ao mal-estar. Ao mesmo tempo, ocupava minha mente em identificar o que de ruim havia acontecido no período a que a saudade me remetera e o “preço” que eu havia pagado para viver aquele agradável momento de (in) satisfação.
Foi incrível como percebi que os reais bons momentos eram menos frequentes do que eu supunha e que, em sua maioria, eram sustentados por sofrimento sublimado. Dei-me conta, desolada, de a quanta violência psíquica me submetera, o que denotava meu estado preocupante de loucura. Doença que não foi causada por ele, mas que serviu perfeitamente para manter nosso relacionamento por anos e anos. Uma simbiose perfeita: um bipolar egocêntrico e narcisista e uma fóbica obsessiva.
O processo de deixar de amar foi longo e doloroso, sujeito a inúmeras recaídas e subsequentes recomeços. Mas não desisti porque era minha única saída para continuar a viver, para tornar a viver. E eu queria (mesmo não querendo) superar a dor da perda e ser feliz. Feliz de verdade, feliz por mim e por tudo e todos que me cercam e não somente por ter alguém como fonte de felicidade.
Enfim, concluí que o único caminho para a real libertação do jugo do amor doentio é querer, com toda a alma e todo o ser, deixar de amar. Perseguir esse objetivo disciplinadamente, firmemente, pacientemente. Se você está frágil e insegura, mantenha distância absoluta e radical; mas se sente-se fortalecida, o contato é necessário para destruir o mito.
No que se baseava o mito que criei? No amor incondicional fundado na insignificância do outro, na sua extrema carência, no empenho sobre humano de suprir essa falta para me tornar indispensável. Se ele era (ou se encontrava) no limbo e eu o ajudei, se só eu via a preciosidade que ele era, escondida sob a má conduta e o descaso com as pessoas, maior a probabilidade de um amor substantivo.
Estive disposta a pagar qualquer preço para vê-lo feliz e confortável, mesmo que isso me fizesse perder a identidade e a autoestima. Paguei o preço e nem me tornei insubstituível e nem o mantive ao meu lado.
Porque nada garante o amor do outro, nada garante o seu empenho, nada garante a disposição para ser dedicado e fiel. Depende do caráter da pessoa e quando a vida pregressa demonstra claramente que ela o tem duvidoso, com você não será diferente. Mais dia, menos dia, de acordo com a conveniência dele, irá tripudiar de você também.
Por isso, se ele quiser ir embora, deixe-o ir. Diga-lhe o que sente (é seu direito), mas não se humilhe, não se exponha, nada peça. Ele só atenderá se for conveniente para mantê-la de “reserva” para os momentos de tédio e solidão futuros. Tudo o que você fizer para segurá-lo, só vai estender a sua dor, porque ele não está mais ali…
Portanto, menina, não se iluda mais. Viva o seu luto e tome providências objetivas para deixar de amar. Se você estiver convicta disso, saberá o que fazer.
Mas, cá entre nós, sempre vai sobrar um cadinho de despeito… que não tem nada a ver com amor. Garanto.