Arquivos do Autor:Diário de uma mulher despeitada

A maluquice da metamorfose ambulante não é tola, é de ouro

Raul Seixas me deixava desconfortável. Não o músico e maravilhoso letrista, mas a pessoa que  era. Só percebia nele a transgressão no mais alto grau e me afastava como o diabo da cruz. Tinha e ainda tenho imensa dificuldade de lidar com extremos, especialmente quando esses extremos levam à degradação física e moral. Ou aquilo que considero degradação.

Como não sabia separar o homem do mito, mantive-me à margem da força de sua mensagem durante minha juventude, o que considero benção do meu natural rigor comportamental. Não corri riscos desnecessários. Talvez por ser muito contida, talvez para frear a atração mórbida por quem vive no limite ou o ultrapassa, talvez por não ter coragem nunca de enfrentar a pressão social, talvez pelo medo de me embriagar e não ter mais volta…

Quanto maior a compressão, maior a explosão.

No início da década de 90, a paixão me fez querer ser iniciada na “sociedade alternativa” e o fui por pessoa tão tresloucada quando o Artista. O fato é que Seixas já havia partido dessa para a melhor e eu consegui sentir, através de um seu discípulo, o que era a compulsão, aquela sede de construção destrutiva (ou destruição construtiva), sem precisar sujar as mãos. Fui espectadora e não a agente e isso faz toda a diferença. Driblou a sede de viver o proibido, mas não a saciou.

Para matar a sede é preciso beber a água.

Sou também eu uma metamorfose ambulante, uma maluca beleza, a encarnação viva do ouro de tolo. Passei muito tempo achando difícil estar contente, apesar de tudo correr às mil maravilhas. Pensava muito no futuro, em face de não viver o presente. Fui a sopa em que muita mosca pousou.

Bum!

A catarse se deu na poltrona do cinema, com a erupção do amor, do entendimento, da gratidão.

Sim, a saudade também é ambulante. Da mesma forma que a metamorfose não é tola.

É de ouro, acredite.

A lenta corrosão da ética

18:23. Muito calor, apesar da chuva torrencial que cai lá fora.  Sentada em frente ao computador, sinto-me como se estivesse navegando em águas revoltas, sem que os efeitos negativos da maresia me acometam.

Ainda não pude voltar ao trabalho intelectual, porque está difícil ler, analisar e fazer anotações, quando, a cada minuto, preciso parar e fixar o olhar em algum ponto, até que a tela pare de balançar. Assim, torna-se complicado elaborar um texto, qualquer texto. Olho minhas mãos e elas ainda me parecem fora de foco… estou bêbada sem o prazer de ter bebido.

Por incrível que pareça,  não me sinto (muito) ansiosa e nem me entreguei aos sintomas das peripécias do meu labirinto, cujo prazo de validade deve estar vencendo. Na verdade, eu inteira estou com  o prazo de validade quase, quase, quase, vencido. Deixei-me gastar demais pela vida e fiz pouca manutenção da máquina pessoal. Não reclamo e rio dos enguiços contumazes nas engrenagens do motor. Lido com a corrosão da matéria de forma tranquila e com minha tradicional ironia e bom humor.

Tô nem aí quanto aos problemas da carne em decomposição. Entretanto, não encaro com a mesma naturalidade a corrosão da ética que me é esfregada na cara todos os dias. Pessoas “pisam na bola” todo o tempo e se consideram íntegras; já naturalizam posturas antiéticas. Realmente se trata da corrosão do caráter, como explica Richard Sennett; a regressão à barbárie, como disse Adorno.

O processo de descaso com o outro fica evidente na banalização da infidelidade conjugal, como se fosse correto, normal, natural satisfazer sua vontade descumprindo o acerto tácito estabelecido entre o casal. O enganado na história faz o papel de idiota, de fantoche. Como desmoralizar o outro pode ser considerado normal?

Já achei que não tinha “nada a ver” exigir postura ética quanto ao comportamento sexual / amoroso dos relacionamentos. Também me equivocava, em nome da liberdade e da cínica máxima de que “quando os olhos não veem, o coração não sente”.

Confesso que é duro resistir às tentações do dia a dia, às investidas várias e às justificativas racionalizadoras, quando o mundo social aceita e até incentiva a prática do hedonismo inconsequente. Precisa-se exercitar a firmeza de propósito, o compromisso com a própria dignidade.

Entendi, depois de muito apanhar, que é melhor  não dar o primeiro passo. Um pequeno suborno abre o caminho para a corrupção; o primeiro tapa leva à violência física desmedida e contínua;  a primeira orgia – todas as orgias –  estimula os desvios da unidade psiquê-corpo e a consequente bestialização do ser.

Com a primeira vez, daquilo que a sensibilidade diz que não se deve fazer, mas que o prazer e a vontade exigem, corre-se o risco de repetir. O acostumar-se ao delito induz ao transpasse da tênue fronteira do ético e do não ético.

Acostumar-se com a degradação é uma patologia sem cura e sem volta porque destrói o que é verdadeiramente divino no humano: sua capacidade de reconhecer o bem e tornar-se um bem em si e para si.

E o bem só se constrói na relação do eu com o outro.

Desejos reprimidos ad infinitum

Acabo de descobrir um desejo que estava escondido há muito, muito tempo e do qual não tinha a mínima ideia da permanência. Como não pude outrora, não posso agora e é improvável que vá satisfazê-lo um dia, terei que conviver com mais essa vontade nada meritória de querer o homem da próxima até o fim dos meus dias.

Frustrante? Para alguém como eu, que quer tudo para já, deverá ser. No entanto, confesso que está sendo instigante deparar-me pela segunda vez com esse tipo de emoção de conteúdo erótico escondida no labirinto de minhas fantasias.

Foi assim… ao ver a foto de um amigo de infância num site de relacionamento, envolveu-me o mesmo frenesi dos nossos reencontros. No último deles, virtual, há alguns anos atrás, ambos casados, trocamos apenas alguns emails com o mais absoluto respeito e formalismo.

O primeiro é que me deixou com água na boca y otras cosas más. Aconteceu no início da década de 70, no auge da adolescência. Foi apenas uma tarde, em que conversamos, relembramos as brincadeiras e atualizamos as fofocas sobre a família e os amigos. Rimos um bocado, tudo de forma descontraída, jovial e saudável, com a alegria natural de crianças sapecas achando-se adultos.

Eu era uma bela mulher; ele se tornara um rapaz alto e muito atraente. Cá entre nós, ele era mesmo um tesão! E foi o que senti, sem admitir, ao vê-lo: um tesão louco por aquele homem que me cravava o olhar de menino maroto.

Se havia reciprocidade, não sei, nunca soube. Mas eu quis acreditar que sim.  A dúvida e a timidez me impediram de me dependurar no pescoço dele e experimentar aquela boca carnuda que outrora ostentara  dentinhos de coelho.

Nada foi dito entre nós sobre atração fatal e jamais falei sobre o assunto com ninguém. De alguma forma, entretanto, o desejo ficou gravado na minha memória e nas minhas entranhas.

Eis que hoje sou novamente  arrebatada ao ver a fotografia de um charmoso senhor e família. Meus olhos se fixaram na boca, nas mãos…

O que fazer se aquele desejo ainda habita em mim?

Pare o mundo que eu quero descer!

Por isso dizem que pimenta  nos olhos dos outros é refresco. Julgava muito drama as reclamações daqueles que tem crises de labirintite até que fui presenteada com uma, na noite de segunda-feira.

Gente, que coisa horrível! Tudo girava sem parar,  enjoo lascado, ânsia de vômito e mal estar que está ali, competindo de igual para igual com aquele produzido pelo Plasil injetável. Passei uma noite de cão e os dias rodando, toda vez que fazia qualquer movimento. Hoje estou só balançando, como se enfrentasse a travessia da Baía de Guajará. Menos mal, mas ainda assim  muito ruim. Incapacitante.

Estranho é estar super bem e, de repente, não mais que de repente, cair doente sem quê nem pra quê. Parece até as atrações fatais, daquelas em que o primeiro olhar deixa a gente de pernas bambas. Tive várias dessas paixonites, nos áureos tempos em que fui um ser apaixonável e apaixonante e vivia piradinha, piradinha. Com as quedas, fortaleci-me de tal forma que me considero imune às flechas do cupido e às armadilhas do saci ou do tinhoso.

Quem, como eu, viveu a necessidade imperiosa de estar sempre envolvida romanticamente com alguém sabe o quanto é bom retomar as rédeas de si. Porque apaixonar-se se torna um vício, que nos leva a ter alguém ao lado – qualquer alguém – apenas  para não ficar consigo mesma.

Daí, como o cerne do bem estar se encontra em outrem, a vida fica com labirintite crônica, uma instabilidade permanente e corrosiva. Viver por causa do outro é autodestrutivo, em quaisquer circunstâncias.

Descobrir as carências e aprender a lidar com elas é um processo longo e doloroso em que estou imersa desde que me separei. Atualmente sou um ser inteiro, com capacidade para partilhar e com humildade suficiente para receber amor. Desci em terra firme.

No entanto, estou receosa de virar uma ermitã, porque, a cada dia que passa, sinto-me mais confortável com a solteirice. Até sorrio intimamente quando me deparo com os impasses usuais da vida a dois, com os jogos de sedução e as manipulações decorrentes.

Não sinto a menor falta do amor romântico, da proteção de um macho, da alma gêmea.  Do outro masculino só desejo mesmo beijo na boca e seus complementos eróticos. E olhe lá!

As raízes do Pânico

Estamos nos bestializando, nos idiotizando. O que vai na cabeça de um sujeito que tem como profissão jogar meleca nos outros? É a espetacularização da babaquice. Amigos, a mediocridade é amiga da barbárie!  

(Wagner Moura, Carta Aberta, Globo.com)

Desde a mais tenra infância tenho horror às brincadeiras de mau gosto de colegas e primos com as quais fui obrigada a conviver. Eles me esfregavam na cara seu prazer mórbido de tirar sarro dos outros, de fazerem os pobres mortais passar por ridículo ou mesmo submetê-los a atos de violência física e psicológica, isto é, exerciam com a maior felicidade e facilidade o que hoje chamam de bullying. Pais, professores e o diabo a quatro achavam tudo normal, coisas da idade e da virilidade.

Quando pegavam um para pato, coitado do coitado!

Gente como eu, meio boba, ingênua, crédula e um tanto covarde, tremiam de medo diante daqueles “que se achavam”, que eram os maiorais, os bambambans na arte de abusar da fragilidade alheia. Daí minha necessidade de me encolher, esconder, ficar invisível  quando pessoas desse naipe farejavam as presas como feras famintas.  Minha excessiva covardia e algum bom senso me salvaram de poucas e boas. Meu estômago nunca me permitiu aderir a essas práticas, nem mesmo quando passei a ter pleno domínio de mim.

Entendo que essa postura de escárnio e de descaso com o sentimento alheio se estende, quando adultos, às relações afetivas. Sem culpa.  Desprezar e fazer pouco caso do que o outro está vivendo é muito mais comum do que se pode imaginar, especialmente nos proto relacionamentos românticos.

“A vida é arte do encontro, embora haja tantos desencontros pela vida”. Saravá, Vinicius, muito lindo, mas agora o buraco é mais embaixo. Hoje em dia, os encontros começam promissores, mas deixam sabor amargo… Falo isso porque tem me chegado aos ouvidos  inúmeras situações em que “o cara” conduz o ficar de forma que “a cara”  se convença de estarem iniciando um relacionamento. O mau caráter se dá o direito de fazer promessas, armar o cenário bucólico da alma gêmea, para depois desaparecer sem deixar vestígio de existência. As moçoilas ficam com a impressão que estavam delirando, surtadas, com a sensação de que são plenas idiotas juramentadas.

Não são não. Nem são barangas, nem são periguetes loucas para dar o golpe da barriga ou encalhadas ensandecidas para casar. Simplesmente são pessoas que querem se desarmar, que querem poder se expor, que querem confiar, que querem partilhar emoções, sentimentos, vida. Apenas isso…

No entanto, assim como era dantes, a crueldade e a zombaria estão na ordem do dia. A audiência do programa Pânico na TV e outros similares não me deixa mentir…

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Segundo Houai ss ( 20 0 4) , cruel dade é a “[ . . . ] caracterí s ti ca
do que é cruel , prazer em fazer o mal , sev e ri dade, dureza”. Já
i roni a é cl assi fi cada como: “[ . . . ] zombari a, e sc árni o, sarcas mo ou
modo de expressão da l í ngua em que há um contraste proposi -
tal entre o que se di z e pensa”; em senti do fi gurado, a i roni a é
cl assi fi cada co mo al go que “[ . . . ] não combi na com o que é es -
perado”.
A expressão crueldade é mui to uti l i zada na atu al i dade,
mas poucos sabem defi ni-l a; quando são i nterpel ados pel a
questão respondem, por exempl o, que é: ” Gast ar mi l hões na
guerra e não gastar os mes mos mi l hões para ma tar a fome de
mui tas pessoa s do pl aneta”
Ess a resposta , como se percebe, não traz as caracterí sti c as teóri cas sobre cruel dade e si m a ação dest a e/ou rev el a uma de suas roupagens.
( da qual ori unda cruel dade) encontramos a ori gem l ati na crudel i s ( carne ensangüentada, cruel , desumano, i nsensí v el ) , deri v ada de cruor ( sangue, carni fi ci na) , as si m ta mbém como a p al av ra crudus: cru , não di geri do, i ndi gesto, v i ol ento, desumano.

Disponível em:

http://www2.uefs.br/dla/graduando/n1/n1.113-123.pdf

Mãe, amor incondicional, alma gêmea e outros mitos

Ainda que eu não acredite em alma gêmea, ainda que eu não acredite em amor incondicional, ainda que eu não acredite na entidade Mãe, ainda que eu não acredite em deuses,

Creio na infinita capacidade de amar das boas pessoas, especialmente quando investidas no papel de mãe – seja de filhos naturais ou adotados, de maridos, irmãos ou da própria mãe dependentes ou incapazes, seja de amigos ou pessoas próximas -.

E como alguém chegada às tradições e às festas, inclusive as de apelo estritamente comercial, desejo a todos aqueles que dedicam esse maravilhoso aprendizado de ser mãe a alguém um

Feliz dia das mães

Surto de uma personalidade autoritária

Dia desses li na aula de espanhol um texto bem interessante  sobre as características de uma personalidade autoritária. Entonces o professor perguntou se alguém havia se identificado com o perfil; obviamente que respondi de imediato que sim. Todos arregalaram os olhos com a afirmação afoita.

Ora, alguém submisso como eu, que gosta de hierarquia, organização e controle tenho mais é que assumir o lado negro de minha personalidade. Sou quase o PODCC da Administração Científica de Taylor/Fayol em carne e osso: planejamento, organização, decisão, coordenação e controle. Tadinha de mim que evoca princípios do início do século XX. Jurássica. 

Ontem tive um surto que me levou às lágrimas apenas e tão somente porque me senti impotente para resolver uma pendência da separação de bens, resquícios da separação de fato. O fato de ser muito certinha faz com que eu espere o mesmo das pessoas e, infelizmente, quase sempre me decepciono.

O “falecido” meteu a mãos pelos pés e fez uma lambança nas finanças que me deixou de cabelos em pé, desorientada e com um medo danado de ser, mais uma vez, prejudicada. Logo agora que eu estou para eliminar o último laço que nos une. Não sei se o medo é de continuar amarrada a ele ou de que o vínculo se acabe irremediavelmente.  Dúvida de mulher doida, só pode…

Pobre é uma “M”, porque tem apenas o nome como patrimônio. Sem nome limpo, sem carisma, e sem lábia – atributos de todo estelionatário que se preze -, estaria perdida pela vida afora. Diante da mais tênue ameaça disso acontecer, meu impulso é agir para eliminar o risco, custe o que custar. Porém, a ação que deveria ter tomado há muito tempo causará consequências drásticas na vida de muitas pessoas e procurei evitar isso de todas as formas. Tive que ter muito estômago para  aguentar o pouco caso do principal interessado, mas cheguei à conclusão que não vou assumir o ônus de quem não está nem aí para o abacaxi. Porque deveria, portanto, me angustiar?

Consegui domar minha raiva e indignação, que sempre deixam um rastro de culpa, e esperar até hoje para fazer o que tinha que ser feito. Após refletir um dia inteiro ( recorrendo ao Marx, Adorno, Paulo Freire e até à Bíblia),; após verificar todas as alternativas à disposição; após tomar uma latinha de Devassa com tira-gosto de queijo cuia; e, após curtir uma tranquila e merecida boa noite de sono; sinto-me em paz e com a consciência tranquila para representar o papel que a lei me atribuiu.

Não é possível evitar o tombo de quem dança e requebra sobre a corda bamba e podre e sente orgasmos múltiplos com isso. Uma hora a dita arrebentará e não quero estar debaixo para ver o estrago. Muito menos ser obrigada a catar os caquinhos.

O outro lado da moeda

Nada de drama. Que graça tem alguém do seu lado sob chantagem, gravidez, dinheiro, recessão de família? O legal é alguém que está com você por você.  E vice versa.

De uma forma geral, as mulheres reclamam demais do comportamento dos homens no início, no meio e no fim das relações afetivas. Já fiz parte desta patota, mas hoje entendi que homens e mulheres são seres de “espécies” diferentes e não gêneros de uma mesma espécie. Há diferenças biológicas, é fato, mas essas são a parte mais gostosa do todo. O entrave está no aspecto sócio-cultural. Aí é que a porca torce o rabo!

O que causa o descompasso é a idealização, baseada num tipo ideal de comportamento homem/mulher que aprendemos socialmente, e que gera expectativa e desconforto com a atitude do outro. Ou se fica ligada muito no que se quer, na nossa carência, e na forma como ele “deve” agir para supri-la, ou na carência/necessidade dele, e o que se pode fazer para torná-lo o ser mais feliz do mundo. Tem gente que é tão pirada que bate tudo isso no liquidificador e investe tanto no ideal que esquece de viver a realidade. E quando a realidade cai em cima de si, sem piedade, considera-se enganada, usada, e a pessoa mais infeliz do mundo.

Conheço várias mulheres que fantasiam demais com o que acontece num primeiro encontro e já esperam um relacionamento a partir daí. É ir com muita sede ao pote, até para mim, uma quase sexagenária. Hoje em dia, ninguém é obrigada “a dar” ou  não “dar” para o cara de primeira. Pode-se deixar fluir o desejo, se ele se manifestar; o receio, se ele acontecer; e a repulsa, se, por desgraça, for esse o resultado do contato. Tudo de forma sutil/leve, por favor, pois estamos ainda conhecendo a pessoa e vice-versa.

Também você pode ligar para o dito cujo no dia seguinte, se for sua vontade. Não tem porque ficar ansiosa esperando o movimento de lá, se você pode pegar o celular e dizer o que quer, nem que seja só um oi. Sem pressão. Nada de achar que o homem é que tem que tomar a iniciativa; se a mulher continuar a pensar assim, nunca vai ser dona de si mesma. Nada também de já imaginar  ”um amor e uma cabana”, casamento e filhos. Se o cara falar nisso, não se iluda, pois é só viagem ou poesia. É raríssimo uma paixão à primeira vista; pense nos 99.9% das vezes que isso não acontece. É provável que o seu acompanhante esteja no segundo bloco de probabilidades.

Depois do primeiro movimento, agora é a vez dele, gatinha. Se ele não retornar, toque sua vida. Nada de ficar esperando, porque vais esperar sentada. Nada de ligar e cobrar um posicionamento; afinal, estão só se conhecendo e parece que você não gostou do comportamento dele. Então, cabe a você descartá-lo ou não levá-lo a serio. Anote o nome dele na sua agenda, que poderá ser uma companhia agradável quando você não tiver nada para fazer. Se ele ligar e você já havia se programado para fazer outra coisa, inclusive dormir, dispense; só saia ou encontre se isso vá te dar prazer e bem-estar. Sem compromisso, é óbvio. É assim que eles agem, o que torna a vida muito mais tranquila e saudável.

Tá certo, você conseguiu fisgar o moço e ele conseguiu fisgar você. Vão ser felizes por um tempo, quem sabe até casar, mas um dia a relação pode acabar, como tudo na vida, não é?

Se for arrancar os cabelos, faça-o sozinha ou em companhia de pessoas de absoluta confiança, isto é, NUNCA na frente do deixante, apesar de ser este o impulso primeiro. Se o fizer, os únicos sentimentos que causará são pena, culpa e raiva, porque reacender o amor não é possível, da mesma forma que não se ressuscita morto. Como disse Arnaldo Jabor, “o legal é alguém estar com você por você”. Qualquer outro motivo só fará você se desprezar e causar desprezo.
O mais importante de tudo que falei é que nunca é tarde para erguer a cabeça e seguir com a vida, mesmo que você tenha armado o maior barraco e se humilhado e exposto de forma exponencial.
Só se aprende errando. As recaídas são humanas assim como o levantar. De novo, novamente, outra vez.
A decisão do que fazer e as consequências do seu ato são suas, de mais ninguém. Ele está noutra, acredite.


Como deixar de amar alguém II

Quando olhaste bem nos olhos meus e teu olhar era de adeus… (Chico Buarque, Atrás da porta)

Ultimamente tenho recebido muitos depoimentos sobre dramas de amor, geralmente postados no texto Como deixar de amar alguém?, que escrevi  em julho de 2011. Quase um ano depois, creio que tenho algo a dizer sobre este assunto, porque me sinto curada do que, um dia, julguei ser um grande amor.

Quem acompanha este blog desde sua criação deve estar se perguntando como consegui tal proeza. Creio que, acima de tudo, foi ter sentido o “adeus” definitivo no olhar do ser amado. Tive, então, que me armar de todos os argumentos, artifícios, desculpas e condições para me manter a salvo do meu desejo de querer a ele mais que tudo. Foi preciso construir uma real vontade de deixar de amar por sentir (mais que entender) que não valia a pena investir meu sentimento naquela direção. Tudo o que vinha de lá apenas me fazia mal. Como poderia amar o que me fazia tanto mal?

Esta passou a ser a questão orientadora dos meus pensamentos, palavras e atos a partir de então. Toda vez que eu me pegava saudosa da companhia dele ou enternecida com palavras ditas ou que a dor da lembrança me deprimia, deixava fluir o sentimento, não o negava, mas não me entregava ao mal-estar. Ao mesmo tempo, ocupava minha mente em identificar o que de ruim havia acontecido no período a que a saudade me remetera e o “preço” que eu havia pagado para viver aquele agradável momento de (in) satisfação.

Foi incrível como percebi que os reais bons momentos eram menos frequentes do que eu supunha e que, em sua maioria, eram sustentados por sofrimento sublimado. Dei-me conta, desolada, de a quanta violência psíquica me submetera, o que denotava meu estado preocupante de loucura. Doença que não foi causada por ele, mas que serviu perfeitamente para manter nosso relacionamento por anos e anos. Uma simbiose perfeita: um bipolar egocêntrico e narcisista e uma fóbica  obsessiva.

O processo de deixar de amar foi longo e doloroso, sujeito a inúmeras recaídas e subsequentes recomeços. Mas não desisti porque era minha única saída para continuar a viver, para tornar a viver. E eu queria (mesmo não querendo) superar a dor da perda e ser feliz. Feliz de verdade, feliz por mim e por tudo e todos que me cercam e não somente por ter alguém como fonte de felicidade.

Enfim, concluí que o único caminho para a real libertação do jugo do amor doentio é querer, com toda a alma e todo o ser, deixar de amar. Perseguir esse objetivo disciplinadamente, firmemente, pacientemente. Se você está frágil e insegura, mantenha distância absoluta e radical; mas se sente-se fortalecida, o contato é necessário para destruir o mito.

No que se baseava o mito que criei? No amor incondicional fundado na insignificância do outro, na sua extrema carência, no empenho sobre humano de suprir essa falta para me tornar indispensável. Se ele era (ou se encontrava) no limbo e eu o ajudei, se só eu via a preciosidade que ele era, escondida sob a má conduta e o descaso com as pessoas, maior a probabilidade de um amor substantivo.

Estive disposta a pagar qualquer preço para vê-lo feliz e confortável, mesmo que isso me fizesse perder a identidade e a autoestima. Paguei o preço e nem me tornei insubstituível e nem o mantive ao meu lado.

Porque nada garante o amor do outro, nada garante o seu empenho, nada garante a disposição para ser dedicado e fiel. Depende do caráter da pessoa e quando a vida pregressa demonstra claramente que ela o tem duvidoso, com você não será diferente. Mais dia, menos dia, de acordo com a conveniência dele, irá tripudiar de você também.

Por isso, se ele quiser ir embora, deixe-o ir.  Diga-lhe o que sente (é seu direito), mas não se humilhe, não se exponha, nada peça. Ele só atenderá se for conveniente para mantê-la de “reserva” para os momentos de tédio e solidão futuros. Tudo o que você fizer para segurá-lo, só vai estender a sua dor, porque ele não está mais ali…

Portanto, menina, não se iluda mais. Viva o seu luto e tome providências objetivas para deixar de amar. Se você estiver convicta disso, saberá o que fazer.

Mas, cá entre nós, sempre vai sobrar um cadinho de despeito… que não tem nada a ver com amor. Garanto.

O que é perder tempo?

Será que é tempo
Que lhe falta para perceber?
Será que temos esse tempo
Para perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara
Tão rara… (Paciência, Lenine)

Tenho cá para mim que viver sofregamente o hoje nos impede de vivê-lo. Paradoxal? Nem tanto, apenas uma conclusão simplória ao escutar Lenine afirmar que “a vida não para”, como  não parava o tempo do Cazuza e como não param meus pensamentos.

Ansiedade gera angústia e alguém angustiado não tem como se permitir a fruição. Falo isso com conhecimento de causa, porque sou uma ansiosa juramentada e com um novo e surpreendente diagnóstico da minha terapeuta: Fobia Social. Bingo! A ansiedade é sintoma e não o cerne da questão.

Talvez por isso tenha um problema cármico com o tempo. Sinto fisicamente ele se esvaindo, a vida passando e eu aqui, parada, “com a boca cheia de dentes, esperando a morte chegar…”  É uma insatisfação permanente com o agora, como se o  vivendo estivesse sempre aquém do que poderia ser.  Ou estou no pretérito imperfeito ou no futuro do pretérito, nunca no gerúndio.

Tenho me dedicado a aceitar com alegria o que me acontece, no ato do acontecido. Não quero mais, depois, constatar o quanto era bom, o quanto era terrível, o que poderia ter  sido se eu tivesse agido como minha intuição me gritava e para a qual amiúde fiz ouvidos moucos.

 O tempo, que se perde reconstruindo o passado ou planejando o futuro, é tempo perdido. O tempo, que se investe em quem não tem tempo pra gente, é tempo perdido. O tempo, que se gasta para acomodar as vaidades, ainda que sejam as nossas, é tempo perdido. O tempo deixado na amargura, no despeito, na vingança, na inveja, é tempo perdido.

O tempo usufruído é aquele em que a música ilumina a vida e a alma sorri.

É o que sinto quando ouço Lenine.