Pois vê só quão pouca consideração tens por mim: estás querendo tocar-me, como instrumento, conhecer os meus registros, do mais alto ao mais baixo. Há muita música boa; aqui dentro, e mesmo assim não sabes como tirá-la deste pequeno órgão. Estás pensando, por Deus, que eu seja mais fácil de ser manuseado que um pífaro? Podes dedilhar-me à vontade, não tirarás nota alguma de mim! – Hamlet, lll ato, cena 2. William Shakespeare
Busquei no Santo Google algo poético que falasse em consideração e achei o apropriado desabafo de Hamlet. Consideração é irmã da gratidão e só pode senti-las quem consegue olhar o outro com generosidade e amor.
Neste momento, não estou falando do amor romântico, ainda que gratidão e consideração se apliquem também a este sentimento. Cá reflito sobre o cuidado de preservar as relações familiares e de amizade, de relevar comportamentos e atitudes, de amar alguém, apesar dos defeitos, às vezes insuportáveis para nossos parâmetros. De fazer pelo outro o que eu sinto e quero, sem pensar se ele faria o mesmo por mim ou se outrora agiu de forma antagônica ao que é socialmente esperado. Meu lema é não me violentar jamais!
Como já falei aqui, estou às voltas com os preparativos dos 80 anos de mamãe. Até posar de designer gráfico, posei. O importante é que mami está feliz e, por osmose, fico feliz também. Mesmo com a correria insana que tem me deixado com olheiras de fazer inveja a qualquer zumbi que se preze.
Mami tem uma disposição incrível para seus 79 anos e 11 meses e meio; vive sozinha e conduz o cotidiano com autonomia. No entanto, ela se reconhece importante para nós quando a acompanhamos para onde quer ir e fica muito orgulhosa do carinho e respeito que todos os filhos, netos e bisnetos demonstram por ela.
Dia desses fui levá-la para entregar alguns convites
de sua festa de aniversário. Ao chegar ao consultório da oftalmologista Elivone, de quem é paciente há mais de dez anos, ficou emocionada com a consideração que a médica demonstrou ao recebê-la imediatamente. A doutora despendeu o tempo precioso de uma consulta para prestigiar a visitante, perguntando sobre as fotos que ilustravam o convite e elogiando a criatividade.
Mami ficou radiante! Entrou no carro como uma mocinha sapeca, toda serelepe, fazendo planos e planos para o dia da recepção. Enquanto nos dirigíamos para mais uma visita – seus parentes, que moram numa cidade da região metropolitana-, foi me contando os causos de suas amigas quando lhes deu o convite. Todas acolheram com empolgação a data festiva.
Enfrentamos um trânsito de lascar para chegar ao destino. Para não haver desencontros, mami avisou que iria e ficou entusiasmada com a possibilidade de rever uma sobrinha, em férias na cidade, visto que há muitos e muitos anos não a encontrava. Devo explicar que essa minha prima foi acolhida por meus pais, numa época conturbada da vida familiar dela. Foi tratada como filha, com os mesmos direitos e deveres de qualquer um de nós. Nada a ver com o costume paraense de fazer parentes do interior de empregadas domésticas. Isso nunca aconteceu em nossa casa.
Enfim, chegamos. Mami desceu do carro ansiosa, com os maravilhosos convites nas mãos. Tocamos a campainha uma vez: nada; a segunda: nada; na terceira, surgiu uma mocinha à janela que nos avisou que não havia ninguém em casa, além dela. Falei do que se tratava e pedi que ela viesse até o portão, para entregarmos os envelopes. Perguntamos se havia algum recado para nós. Nada.
Vi o semblante de minha mãe murchar e meu coração apertou. O que eu poderia fazer para justificar tal descaso? Disse apenas que talvez tivessem ido ao supermercado, que podíamos esperar, mas não houve convite para entrarmos. Fomos embora, envoltas num grande mal-estar.
Depois de um tempo caladas, mamãe falou: “fiz minha parte vindo até a casa de minha irmã porque senti ser importante partilhar esse momento com ela. Afinal, são 80 anos. Gostei de ter vindo”.
Fiquei ternamente agradecida e orgulhosa daquela velhinha sajica e forte ser minha mãe.
Moral da história: Quem puxa aos seus, não degenera.
Vejo que mami degenerou…
Exceto para as “viúvas negras”, toda viuvez é compulsória. Sinto-me também meio viúva porque aqueles gajos com quem vivi estão mortinhos da silva, se é que existiram um dia para além da minha fértil imaginação. O tal que me deixou está radiantemente feliz.


Hoje chorei escondido ao terminar de ler o livro “
