Arquivo do mês: janeiro 2012

Sentir-se considerado, eis a questão!

Pois vê só quão pouca consideração tens por mim: estás querendo tocar-me, como instrumento, conhecer os meus registros, do mais alto ao mais baixo. Há muita música boa; aqui dentro, e mesmo assim não sabes como tirá-la deste pequeno órgão. Estás pensando, por Deus, que eu seja mais fácil de ser manuseado que um pífaro? Podes dedilhar-me à vontade, não tirarás nota alguma de mim! – Hamlet, lll ato, cena 2. William Shakespeare

Busquei no Santo Google algo poético que falasse em consideração e achei o apropriado desabafo de Hamlet. Consideração é irmã da gratidão e só pode senti-las quem consegue olhar o outro com generosidade e amor.

Neste momento, não estou falando do amor romântico, ainda que gratidão e consideração se apliquem também a este sentimento. Cá reflito sobre o cuidado de preservar as relações familiares e de amizade, de relevar comportamentos e atitudes, de amar alguém, apesar dos defeitos, às vezes insuportáveis para nossos parâmetros. De fazer pelo outro o que eu sinto e quero, sem pensar se ele faria o mesmo por mim ou se outrora agiu de forma antagônica ao que é socialmente esperado. Meu lema é não me violentar jamais!

Como já falei aqui, estou às voltas com os preparativos dos 80 anos de mamãe. Até posar de designer gráfico, posei. O importante é que mami está feliz e, por osmose, fico feliz também. Mesmo com a correria insana que tem me deixado com olheiras de fazer inveja a qualquer zumbi que se preze.

Mami tem uma disposição incrível para seus 79 anos e 11 meses e meio; vive sozinha e conduz o cotidiano com autonomia. No entanto, ela se reconhece importante para nós quando a acompanhamos para onde quer ir e fica muito orgulhosa do carinho e respeito que todos os filhos, netos e bisnetos demonstram por ela.

Dia desses fui levá-la para entregar alguns convites de sua festa de aniversário. Ao chegar ao consultório da oftalmologista Elivone, de quem é paciente há mais de dez anos, ficou emocionada com a consideração que a médica demonstrou ao recebê-la imediatamente. A doutora despendeu o tempo precioso de uma consulta para prestigiar a visitante, perguntando sobre as fotos que ilustravam o convite e elogiando a criatividade.

Mami ficou radiante! Entrou no carro como uma mocinha sapeca, toda serelepe, fazendo planos e planos para o dia da recepção. Enquanto nos dirigíamos para mais uma visita – seus parentes, que moram numa cidade da região metropolitana-, foi me contando os causos de suas amigas quando lhes deu o convite. Todas acolheram com empolgação a data festiva.

Enfrentamos um trânsito de lascar para chegar ao destino. Para não haver desencontros, mami avisou que iria e ficou entusiasmada com a possibilidade de rever uma sobrinha, em férias na cidade, visto que há muitos e muitos anos não a encontrava. Devo explicar que essa minha prima foi acolhida por meus pais, numa época conturbada da vida familiar dela. Foi tratada como filha, com os mesmos direitos e deveres de qualquer um de nós. Nada a ver com o costume paraense de fazer parentes do interior de empregadas domésticas. Isso nunca aconteceu em nossa casa.

Enfim, chegamos. Mami desceu do carro ansiosa, com os maravilhosos convites nas mãos. Tocamos a campainha uma vez: nada; a segunda: nada; na terceira, surgiu uma mocinha à janela que nos avisou que não havia ninguém em casa, além dela. Falei do que se tratava e pedi que ela viesse até o portão, para entregarmos os envelopes. Perguntamos se havia algum recado para nós. Nada.

Vi o semblante de minha mãe murchar e meu coração apertou. O que eu poderia fazer para justificar tal descaso? Disse apenas que talvez tivessem ido ao supermercado, que podíamos esperar, mas não houve convite para entrarmos. Fomos embora, envoltas num grande mal-estar.

Depois de um tempo caladas, mamãe falou: “fiz minha parte vindo até a casa de minha irmã porque senti ser importante partilhar esse momento com ela. Afinal, são 80 anos. Gostei de ter vindo”.

Fiquei ternamente agradecida e orgulhosa daquela velhinha sajica e forte ser minha mãe.

Moral da história: Quem puxa aos seus, não degenera.

Vejo que mami degenerou…

Toda viuvez é compulsória

Exceto para as “viúvas negras”, toda viuvez é compulsória. Sinto-me também meio viúva porque aqueles gajos com quem vivi estão mortinhos da silva, se é que existiram um dia para além da minha fértil imaginação. O tal que me deixou está radiantemente feliz.

Sei que as impressões atuais refletem duas coisas: a primeira é a ausência da generosidade inerente às lentes do amor na avaliação do ser amado; a segunda, a intolerância característica do despeito. Na verdade, o ideal e o real embalam os amores, e, quando o amor vai embora, resta o que teimamos em não ver e o que nos esforçamos para esconder. Enfim, o fim desnudou meus companheiros, mostrando que não chegavam aos pés daqueles que eu pensava ter.

Nenhum drama com isso, pois tive a sorte de ter nascido de uma gravidez múltipla. Realmente já encontrei muitas almas gêmeas e espero encontrar outras tantas.  Como dizem por aí, se a gente tem fé, tudo acontece. Por isso não perco a esperança de aceitar, com resignação e de bom grado, a finitude das relações afetivas. Chega de acreditar em conto da carochinha, Ida Lenir.

Por outro lado, continuo arisca com relação ao amor. Sinto-me mais confortável falando do passado que do presente, porque o passado não poderá ser mudado com os comentários que eu faça sobre ele. Já foi. Também tive muitos estímulos regressivos por esses dias.

Precisei selecionar fotos para o aniversário de 80 anos  de minha mãe. Ao fazê-lo, mergulhei numa retrospectiva de minha vida, desde as circunstâncias que aproximaram meus pais até minha convivência com os netos. Além de muitos sorrisos, as fotos me deixaram enternecida e orgulhosa.  Concluí que minha vida foi, no mínimo, emocionalmente tumultuada. Cheia de paixões, de tensões, de tesões, de burradas e de ousadia. Hoje ela é bem mais tranquila, mais serena, mas não menos interessante.

É certo que meu coração já não aguenta tantas peripécias. Muito menos o esqueleto. A mente, entretanto, está cada vez mais alerta, mais esperta. A percepção, mais refinada. O sorriso, mais confiante. E as escolhas, mais coerentes.

Olhar o passado, rir dele, chorar por ele, faz parte de viver bem o presente. Porque o que passou não é descartável; foram as pessoas e os acontecimentos da minha vida pregressa que me fizeram assim, que me tornaram o que sou. Foram os caminhos que segui e não aqueles que idealizei que me trouxeram onde estou.

Então, que bom que já enviuvei tantas vezes, a maioria delas, pelo suicídio amoroso do parceiro. Que bom que me descabelei loucamente pelos amores perdidos e agora sorrio ao lembrar das minhas encenações dramáticas e profundas. Que bom que tudo passa e tudo passará.

Quando me dou conta de tudo que fiz e de tudo que superei, dá-me ganas de viver mais e mais. Agora, com moderação.

Oficina do diabo

Sexta-feira passada tive uma experiência sui generis: fui levar meu carro para consertar a fechadura em uma oficina da periferia de Belém. O lugar era tão “comunitário”, que fui informada a não sair para andar pelas imediações com minha cadela. Era melhor que aguardasse o conserto lá dentro.

Diante de tamanho estímulo, fiquei sentada, observando o comportamento de mecânicos e fregueses e prestando a atenção no serviço. Nunca tinha visto uma porta de carro pelada e foi uma experiência emocionante.

A oficina era limpa e organizada; o eletricista educado, discreto e trabalhador, uma exceção em se tratando de homens papa chibés. Eu era a única mulher no meio de doze homens de tamanhos, cores e tipos diferentes. Fazia tempo que havia estado em contato com tanta testosterona; respirava-se masculinidade naquele recinto.  Também já nem lembrava quando tinha sido observada por tantos olhos de macho, sem dissimulação ou pudor. Confesso que não foi de todo ruim. Lembrei-me da piada da construção…

Consegui sair de lá com a porta perfeita (era apenas uma mola menor que a unha do meu dedo mindinho), pagando pelo serviço 20% do que pagaria na autorizada. Fiquei muito orgulhosa por ter vencido o medo e a insegurança e arriscado conhecer o mundo secreto dos motores. Incrível, mas eles não mordem!

Fiquem tranquilos que nenhum dos mecânicos sarados me apeteceu. Lógico que nenhum deles chegava aos pés do Gianechini; embora alguns, de boca fechada, com um bom trato e em época de racionamento, seriam digeridos sem cerimônia. Ainda bem que a situação não chegou a esse ponto e pude sair de lá com a minha postura de senhora gostosona. Imaginem: eu, a gostosona da oficina! O diabo deveria estar rindo…

Realmente poderia ser chiste de um duende brincalhão ou o saci pererê me pregando uma peça. A vovó ficou se achando porque era um ser exótico naquele meio; mas, entre os seus pares, o buraco seria mais embaixo. Afinal, não fui eu mesmo há pouquíssimo tempo atrás trocada por uma nativa comunitária de 25 aninhos?

Mas aí…

Estava eu entre pessoas instruídas, de alto poder aquisitivo e senti os mesmos olhares masculinos que havia percebido na oficina. Estranhei muito porque a faixa etária era mais elevada, assim como o conteúdo dos bolsos e do cérebro. Não são esses os homens que babam pelas ninfetas periféricas?

Pois é, o que percebi é que ainda tem homem que sabe apreciar o que é bom nesse mundo de meu Deus. Sei que tenho meus encantos, tanto físicos quanto de personalidade e simpatia; mesmo assim, fiquei com a pulga atrás da orelha. Por que eles me olhavam daquele jeito, visto que me conheciam há tanto tempo?

Foi quando um deles, pelo qual eu poderia arrastar um caminhão (mas não irei jamais, pois é comprometido), chamou-me para o lado e começou a conversar. Que simpatia! Mais simpática foi a forma dele olhar discretamente para o meu decote e depois me olhar nos olhos. Fiz de conta que não percebi, mas que fiquei tentada a consentir, lá isso fiquei.

Quando voltava para minha casa, dirigindo calmamente, debaixo de um temporal de inverno paraense, dei-me conta do que acontecera: era a primeira vez que eu me reunia com eles depois de minha separação.

Separada, sozinha (= a carente pra eles), com tudo (aparentemente) em cima, toda sorridente e ainda por cima, vizinha, era muito ingrediente para o imaginário masculino, a verdadeira oficina do diabo.

Acho que vai ter marido pensando em mim na hora do rala e rola por algum tempo…

Morrer pelos homens!

Li uma matéria interessante na coluna do escritor português João Pereira Coutinho, da Folha de São Paulo, intitulada “Morrer pelos Homens?” O autor toca na delicada questão de as mulheres se auto flagelarem para agradarem aos homens, enquanto que os homens (exceto os metrossexuais) não se submetem nem mesmo à depilação das orelhas com o intuito da conquista. Sejam eles hetero ou homossexuais.

Mulheres foram para a fogueira para termos os direitos que hoje temos, para sermos consideradas humanas e deixarmos de ser pessoas de segunda categoria. Absolutamente todo “direito” teve que ser conquistado, a peso de muito sofrimento físico e psicológico de gerações e gerações.

Mas os preconceitos deitam raízes profundas; é muito difícil libertar-se deles em apenas um século. Exige transformação radical na forma de viver as relações entre homens e mulheres e o que vemos são mudanças pontuais. No íntimo está tudo mais ou menos como dantes. É preciso mais que queimar sutiãs nas praças.

Talvez por isso corremos risco de vida para suspender os seios, quando a amamentação ou a lei da gravidade se encarrega de abatê-los. Com a vinda dos filhos, sejam os partos normais ou cesáreos, vem a preocupação de o assoalho pélvico estar flácido e lá vamos nós para a vaginoplastia. Cobranças e mais cobranças por causa de estrias, celulites, flacidez, peso excessivo, rugas e demais mudanças que o tempo de uso de um corpo traz.

Aliados a esses medos e às respectivas soluções brutais – cirurgias plásticas, silicone, botox e assemelhados-, há os procedimentos mais leves, como maquiagem definitiva, depilação em geral, manicure, pedicure, limpeza de pele e uma infinidade de cuidados com os cabelos. A mulherada mexe tanto em si mesma que acaba virando uma caricatura, como estamos cansados de ver em artistas, políticas, parentes e vizinhas.

Para completar a tortura, haja malhação. Isto tudo para ser desejada e comida; às vezes, mal comida. A aparência tem se transformado numa tal obsessão que desvia toda possibilidade de encontro e de prazer. Como entregar-se se, no lugar do pudor castrante, instalou-se uma ditadura estética não menos castradora?

Gosto de me cuidar, de verdade. Sinto-me mal se a depilação não está em dia, se as unhas e as sobrancelhas estiverem por fazer, se saio sem passar um baton. Com a idade, tive que acrescentar mais o queixo na lista de eliminação de pelos. Estas são minhas vaidades supremas. Gostaria de estar um pouco menos “cheínha” do que o espelho mostra, mas a gostosura não impede de me sentir bonita.

Acredito que o fato de eu estar bem comigo mesma, de estar em paz e de viver em harmonia tenham colorido o semblante e me iluminado. O sorriso franco e  a segurança nos atos trazem uma beleza consistente, que não tem a efemeridade da beleza juvenil.

Eu teria ainda muito o que escrever, mas está na hora da minha aula de espanhol.  Como dever de casa, peço às meninas e aos meninos que me digam se conhecem algum homem que, por questões estéticas, tenha feito plástica na bolsa escrotal, vulgarmente conhecida como “saco”. Ou que, pelo mesmo motivo, tenham-no depilado com cera quente, juntamente com o períneo e lateral anal. Ou ainda que, para atender padrões sociais, tenham aumentado ou engrossado o pênis, artificialmente (o silicone está aí pra isso).

Eu não conheço.

Pé grego

Descobri que tenho pé grego. Achei super chic.

Vivi minha adolescência em um tempo em que uma mulher calçar 39/40 era raríssimo. Eu era uma dessas raridades, isto é, um tremendo sapatão. Para completar o desastre, tinha (e tenho, lógico) os dedos finos e longos, e o segundo deles é um centímetro maior que o dedão. Diziam que eu iria mandar no marido. Mentira das brabas.

Numa sociedade em que se cultuava pés de gueixa, eu estava em maus lençóis. Mamãe dizia e repetia que eu os tinha horrorosos e fiquei absolutamente convencida disso.

Até que um dia, um colega disse achar meus pés muito bonitos, sempre bem cuidados e com sandálias delicadas. Acho que foi o primeiro (e único) que percebeu a estilo greco-romano dos meus pezinhos. Entendi, então, que havia gosto para tudo, até por pés tão fora do padrão estético dominante como os meus.

Com relação ao corpo das pessoas, acredito que falar de feio ou bonito remete sempre ao aspecto cultural. Fui uma criança linda, uma adolescente idem e sou uma cinquentona comível, de acordo com os amigos. No entanto, só consegui sentir-me confortável comigo mesma há pouquíssimo tempo, cerca de dois anos.

Passei a vida toda olhando apenas para o que não estava nos conformes. Absolutamente nos conformes. Os seios pós amamentação (aos 16 aninhos) ficaram sofríveis, tadinhos. Dei um jeitinho neles aos 28. Ficaram lindos! Até essa data, porém, era um martírio tirar minha roupa na frente de qualquer outra pessoa que não fosse meu marido, que os tinha conhecido nos áureos tempos. Acho que fui fiel por vergonha do meu corpo. Será?

Com muita terapia, avancei muito no quesito aceitação. A atração fatal de um namorante foi crucial nesse processo. Sentir-se desejada por um homem tão poderoso quanto interessante, apesar de (?), teve um efeito libertador. Mas…

Sempre tem um mas. Todos os avanços foram ladeira abaixo, ante os comentários críticos e debochados de uma pessoa querida. Eu escutava as avaliações que o dito fazia das outras mulheres e olhava para mim. Quando eu não possuía os atributos admirados ou quando os defeitos apontados eram exatamente iguais aos motivos do desdém, assumia a crítica como se fosse dirigida a mim.

Em vez de manifestar meu incômodo, meu desagrado, comecei a fazer piadas a respeito de mim mesma, a me antecipar à crítica. Atitude de defesa muito simpática ser a palhaça da corte. Mas que destruiu minha autoestima como fêmea, ah, isso destruiu. Difícil lidar com a sensação de menos valia num casamento longo, em que o parceiro diz o que quer e você tem que pisar em ovos para falar o que seja.

Não estou condenando ninguém, muito menos culpando. Tudo o que aconteceu, só aconteceu com meu consentimento. A empatia não é uma qualidade em quem é assumidamente autoreferente, embora seja companhia constante de quem tem complexo de inferioridade.

Não adianta chorar pelo que fiz ou não fiz. Resta-me agora fazer a lição de casa para não repetir a tragédia.

Pensando bem, se tenho um lindo nariz grego e um estiloso pé grego, deveria voltar à Grécia para buscar um grego inteirinho só pra mim.

Atenas, me aguarde!

Quando chegar a hora do verdadeiro adeus

Hoje chorei escondido ao terminar de ler o livro “Adeus China” sobre a epopeia de Li Cunxin, grande bailarino chinês. Aguentei o quanto pude, mas não resisti quando me vi sozinha; as lágrimas escorreram pelo meu rosto, quanto eu caminhava para o salão.

Por que chorei escondido? Vergonha. Não de chorar, mas do motivo do choro. Fiquei emocionada em vários momentos da leitura, especialmente nos trechos em que o autor descrevia a relação dele com os pais e os irmãos. Mas o que me tocou fundo e embargou a garganta foi  a história de amor entre os pais de Cunxin e aquele que ele e Mary, sua esposa,  nutriam um pelo outro. Era  amor para toda a vida, amor profundo, encontro de almas aliado à determinação e compromisso de ficarem juntos.

Quis tanto isso para mim! Acreditei, um dia, que tinha encontrado minha cara-metade e que envelheceríamos juntos. Não porque fôssemos parecidos, mas devido à maneira como me sentia plena ao lado dele. Senti (e agradeço ter tido essa benção) um amor genuíno, um bem-querer que era só querer bem e fazer o outro feliz, muito feliz. Um ato de doação; de abnegação, até.

Talvez por isso e pelo desejo imenso de ser correspondida, tenha acreditado que o sentimento era recíproco. Ou talvez tenha sido por algum tempo, sei lá. Mas isso não importa mais.

O que importa é que, apesar da desesperança que se instalou em mim, o desejo de ser verdadeiramente amada por um homem continua intacto, ainda que amordaçado, com camisa de força, dentro de uma gaiola de ferro.

Um dia, essa saudade doída que teima em me acompanhar, vai acabar. Tenho medo quando eu olhar para mim e não mais encontrá-la. O que farei com o amor romântico que sobrará?

BEMBELELÉM, viva Belém!

Hoje é o aniversário da cidade de Santa Maria de Belém do Grão Pará, minha cidade natal e a terra que escolhi para viver.

Dia de aniversário não é momento para se falar de defeitos da aniversariante, apesar dela tê-los aos montes e com alto teor de periculosidade, o que complica a vida de seus habitantes. É hora de saudar suas inúmeras qualidades.

O que me remete à Belém é o cheiro da chuva pesada esparrando sobre  na terra, de manga caindo e, eu correndo, toda molhada e despenteada, para pegá-la e levar para mami.

Foi aqui que conheci o beijo na boca, o sexo, o trabalho. Foi aqui que vivi minhas grandes paixões, que tive meus filhos, que consegui meu primeiro emprego, que conquistei o que tenho hoje, tanto material quanto afetivamente. Um lugar assim, a gente carrega para onde for. Até estando nela, trago no peito uma Belém que não mais existe.

Quem te conhece, não te esquece jamais. A frase foi dedicada à Minas Gerais, mas é o que sentimos quando conhecemos Belém. Tanto assim é, que vários são os poetas que eternizaram seu bem querer por ela em verso. Gosto demais do poema Belém do Pará, de Manuel Bandeira. Engraçado é que já gostava dele muito antes de voltar a morar na cidade, da qual saí aos dois meses de idade.

Mas Belém precisa mais que declarações, necessita de atos concretos de amor, de respeito, de cuidado. Não só dos representantes que (mal) escolhemos, mas de todos nós, que a fazemos ser o que é.

Empenho-me para torná-la um lugar bom de viver. Afinal, Belém é minha casa.

BELÉM DO PARÁ

                   Manuel Bandeira

Bembelelém

Viva Belém! 

Belém do Pará porto moderno integrado na equatorial

Beleza eterna da paisagem 

Bembelelém

Viva Belém! 

Cidade pomar 

(Obrigou a polícia a classificar um tipo novo de delinqüente.

O apedrejador de mangueiras) 

Bembelelém

Viva Belém! 

Belém do Pará onde as avenidas se chamam Estradas:

Estrada de São Jerônimo

Estrada de Nazaré

Onde a banal Avenida Marechal Deodoro da Fonseca de todas as cidades do Brasil 

Se chama liricamente

Brasileiramente 

Estrada do Generalíssimo Deodoro 

Bembelelém

Viva Belém!  

Nortista gostosa

Eu te quero bem. 

Terra da castanha

Terra da borracha

Terra de biriba, bacuri, sapoti 

Terra de fala cheia de nome indígena 

Que a gente não sabe se é de fruta, pé de pau ou ave de plumagem bonita. 

Nortista gostosa

Eu te quero bem. 

Me obrigarás a novas saudades 

Nunca mais me esquecerei do teu Largo da Sé 

Com a fé maciça das duas maravilhosas igrejas barrocas 

E o renque ajoelhado de sobradinhos coloniais tão bonitinhos 

Nunca mais me esquecerei

Das velas encarnadas  

Verdes

Azuis 

Da doca de Ver-o-Peso

Nunca mais 

E foi pra me consolar mais tarde

Que inventei esta cantiga: 

Bembelelém

Viva Belém! 

Nortista gostosa

Eu te quero bem.

Carma geracional

Pode parecer forte demais o título deste texto, mas CARMA é exatamente o que percebo em determinados conjuntos de situações que acontecem no meu entorno. Por mais que eu me cerque de cuidados, procure alertar pessoas queridas do mal que estão fazendo a si mesmas, não adianta. Tudo se repete, em versões atualizadas, como se fosse o remake de uma novela antiga.

O conflito entre as gerações acontece desde o início dos tempos. A forma de encará-lo é que vai mudando: há épocas em que é debelado com opressão e violência; em outras, existe mais diálogo e compreensão. Acredito que estamos vivendo um momento de extrema permissividade e de confusão total entre o que é autoridade e autoritarismo, abertura e omissão. Com o complicador de que a responsabilidade paterna é confundida com conforto material. A formação do caráter e o fortalecimento de valores como compromisso, respeito, solidariedade e empatia são relegados a segundo plano, quando não, absolutamente esquecidos. O “se dar bem a qualquer preço” é o lema da rapaziada e da velharada.

E aí, uma menina de 15 anos acha normal participar de orgias para se vingar do namorado que a traiu. E conta isso achando graça, como se fosse um grande feito. Debocha das pessoas que a amam, manipula a família, provoca intrigas. Lógico que é difícil acreditar que aquela mocinha antenada, que a gente viu nascer, se transformou numa mulher sem pudor, sem eira, nem beira.  Perdeu o amor próprio, a autoestima. Não tem noção do mal que está fazendo a si mesma.

Se há culpa, de quem é? Uma parte é da família próxima que, em vez de ajudar os pais, orientado-os em conversas particulares, destruiu a imagem deles, criticando-os de forma severa e irresponsável diante da filha. Outra parte da culpa é dos pais, muitas vezes arrogantes e atrevidos, que fizeram ouvidos moucos a quem queria ajudá-los, na presunção que é própria da juventude. Assim, achavam lindo a princesa ser inteligente, decidida, voluntariosa e não torceram o pepino quando pequeno. Preocuparam-se demais com os próprios prazeres e necessidades, com aparência e futilidades, esquecendo de cultivar valores fundamentais.

Mas, na minha avaliação, a culpa principal é da própria jovem, que recusa a ajuda oferecida e (óbvio) não aceita limites. Na idade dela, já tem discernimento suficiente para perceber que está caindo num precipício e que, quanto mais fundo chegar, mais difícil será para retornar à superfície. Direitos trazem, em contrapartida, uma infinidade de deveres e responsabilidades. Esqueceram de dizer isso para tolinha.

Quando escuto histórias assim, fico triste, muito triste mesmo. Fui uma jovem rebelde, engravidei do meu namorado (não era ficante ou uma transa eventual) aos 15 anos. Mesmo louquinha para minha geração, sempre respeitei meus pais, meus tios, meus avós; sempre refleti sobre os conselhos que me davam, porque sabia que era para o meu bem. Meus pais tiveram o feeling de morar bem longe da sua família e puderam nos criar sem interferências ou influências. O mérito ou demérito de nossa criação é deles, só deles.

Ficar grávida no início dos anos 70, ainda era um fato estigmatizante. Fui cobrada pelo meu descuido, tendo que assumir todas as agruras de morar na casa dos sogros e criar um bebê, em condições de muita pobreza. Isso só fortaleceu meu caráter e fez com que eu me empenhasse de corpo e alma para que meus filhos não passassem pelo que eu passei.

Aí está o erro de percepção e de atitude. Não se pode poupar os filhos da vida, não se pode isolá-los da dinâmica social, sob pena deles não compreenderem as demandas do mundo. Por outro lado, não se pode transformar o ambiente familiar numa réplica da tirania social e fazer dos filhos pessoas pessimistas, deprimidas ou violentas.

Com raríssimas exceções, pais culpados criam filhos egoístas. Filhos egoístas, quando se tornam pais, são omissos. E os filhos desses pais omissos, tendem a ser pessoas perdidas, suicidas, irresponsáveis, meliantes. Tudo porque não perceberam o mal que estavam fazendo ao não torcer o pepino quando era possível.

Aí a sociedade o torcerá, sem dó, nem piedade.

Ser lembrada é bom

Ontem foi meu aniversário de 55 anos. Grande feito chegar nesta idade tão cheia de vida e com tantas conquistas. Para comemorar, havia planejado fazer uma reunião dançante, mas a preguiça foi maior que a vontade. Mami, manas Clara e Kátia e família cá vieram me dar um abraço no início da noite. Trouxeram um bolo de cenoura e salgadinhos; eu fiz um pão caseiro e pão de queijo e, assim, lanchamos, sem o tradicional parabéns.

Também não precisava de mais cantoria. Passei o dia ouvindo a musiquinha ao vivo, por telefone e como parte do conteúdo dos emails, do Orkut e do Facebook, de todos os cantos do mundo. Coisa boa esse trem de rede social, pois permite que pessoas, com as quais temos todos os tipos de relações, manifestem os desejos de felicidade. Até aqueles que não conhecemos ao vivo e em cores se tornam íntimos.

Sei que tem a ajuda providencial das agendas dos aplicativos, mas não interessa a forma, o fato é que foi bom demais ser lembrada. O primeiro email a chegar foi da TAM, segundos depois da zero hora. Aí começou a bateria de mensagens institucionais que encheram minha caixa de entrada. Se eu não tivesse amigos de verdade, pelo menos as máquinas eletrônicas teriam se lembrado de mim.

Recebi mensagens lindas, dos filhos, dos irmãos, de amigos e amigas queridos, dos admiradores, de todos os ex significativos e de alguns que passaram a ser, das namoradas dos ex e de muitos seguidores deste blog. Ganhei até um buquê de flores de minha filha caçula, que nem é chegada a essas manifestações de carinho. Minha madrinha de 89,9999 anos me ligou de São Domingos do Capim, cantando: Papararabens prapra vovocêcê, nesestata dadatata… Tô podendo…

Ainda estou nas nuvens com tanto paparico. Agora tenho a responsabilidade de manter abertos o coração e a mente para que os bons fluidos possam me acompanhar durante minha versão 5.5.

Dizem por aí que estou cada vez melhor. Só me resta acreditar e agradecer o carinho de vocês por serem mentirosos tão convincentes e simpáticos.

Ai, se eu te pego, ai, se eu te pego

Acordei hoje com um sorriso até as orelhas e com a música do Michel Teló na ponta da língua. Não consegui entender qual a relação entre o sonho bizarro que tive e o diacho do refrão:

Delícia, delícia
Assim você me mata
Ai se eu te pego, ai ai se eu te pego

Nos meus devaneios oníricos, encontrava-me sobre um conhecido espécime humano do sexo masculino, em altas performances, mas com o cuidado de manter o travesseiro cobrindo o rosto, quase a matá-lo sufocado. Eu fazia todo o serviço, me deliciava com aquele corpicho conhecido, mas não queria de jeito nenhum ver as fuças do rapaz. E olha que ele está meio gasto, mas tem uma cara cínica deliciosa e ainda dá bom caldo. Acho.

Não encuquei com o dejà vu , mas me incomodei bastante com a perseguição da tal melodia, que a toda hora saía da minha boca. Fui motivo de risos no hospital, no salão, no passeio com minha cadela e em todos os lugares por onde andei. Era só eu ficar quieta que o “ai se eu te pego” fluía docemente. Peguei…

Para me curar do cacoete, mergulhei na tese de uma aluna, do final da tarde até há pouco. Foi um santo remédio! Acho que analisar textos pode ser o caminho para curar muitas doenças psicossomáticas. Tenho certeza que dá um grande alívio nas dores de cotovelo e naquelas do coração.

Em cabeça ocupada com a razão, não entra ilusão.

Parodiando Descartes, penso, logo, não amo.