Divisor de águas

Adoro o nome do meu blog “diariodeumamulherdespeitada”.  É um nome forte, de impacto. A inspiração me veio no metrô. Pensava em escrever um livro com esse título. Vi que seria mais uma de minhas idéias mirabolantes que nunca eu colocaria em prática. Efeito de fases de euforia, após traumas maiores ou menores.

Resolvi que um blog seria factível. E lá fui eu ver como fazer, procurar informações, pedir ajuda. A ajuda não veio e comecei a escrever assim mesmo. Decidi que seria um blog só de textos, de reflexões pessoais para partilhar com quem estivesse a fim de conversar sem muita exposição.

Inspirei-me na Cora Coralina, na Lia Luft, na Adélia Prado. Da primeira, falar sobre o próprio cotidiano, sobre a minha vida do dia a dia; de Lia adotei o estilo mais mordaz, com pitadas de realismo; e de Adélia a simplicidade das palavras. Isso não quer dizer que consegui chegar aos pés de alguma delas. Mas estou tentando, creiam.

Acontece que aquilo que me mobilizou para fazer este blog  já passou. Ou está quase passando. Do despeito, sobrou indiferença. Do amor, boas lembranças.

A vida segue cheia de surpresas, de alegria, de festa. Alguns percalços acontecem, mas a gente “levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”.

No entanto, não vou abrir mão deste blog e nem dos leitores e leitoras que me acompanham, comentam e me fazem muito feliz e um pouquinho (só um pouquinho, juro!) vaidosa.

Ainda temos muito o que conversar. Não do que passou ou doeu, e sim das inúmeras possibilidades de vida que se descortinam.

Então, vou marcar aqui um divisor de águas. Um novo blog com o mesmo nome.

Pode ser?

Nota: Captulei! Diante de tantos argumentos e sugestões, resolvi adotar uma delas.

Mérito da minha querida amiga Rossana: agora, despertei do despeito! O nome fantasia do blog passa a ser

DIARIO DE UMA MULHER DESPErTADA

mas o link continua o mesmo:

http://www.diariodeumamulherdespeitada.wordpress.com

Voilà!

Nada como um dia atrás do outro

Com uma noite entre eles. A minha noite foi longa, mas serviu para grandes e profundas reflexões.  Uma delas diz respeito ao nome do meu blog. A troca da letra I pela letra R sempre me incomodou muito mais do que as recriminações pelo uso do título original.

O nome da gente faz parte da nossa identidade. Eu adoro o Ida + Lenir, apesar de ser um nome antigo e pouco convencional. Gerou e gera muita brincadeira. Nunca me incomodei. Orgulho-me dele homenagear pessoas significativas de minha família.

O mesmo acontece com o nome deste blog. O insight, que deu origem a essa marca forte, foi deveras criativo. Nada tem de depreciativo. Ao contrário, traduz uma fina ironia, a capacidade de rir de si mesmo, atitude encontrada nas pessoas sensíveis e inteligentes.

Por isso e em respeito ao meu bom gosto e originalidade, volto a denominá-lo de Diário de uma mulher despeitada. Sem eufemismos.

Pergunta indiscreta

Neste semestre, estou repetindo, por livre e espontânea vontade, o último módulo do curso de espanhol. Sei que para euzinha falar fluentemente outro idioma, o recomendável seria algo mais ou menos como um estupro cultural: fazer um intercâmbio num país castelhano sem parentes, aderentes ou amigos lusófonos por perto, ou viver bêbada para perder a vergonha e destravar a língua de vez.

Não é só a língua que preciso destravar, como meus caros leitores estão cansados de saber.

Voltando ao assunto. Estar em sala de aula é uma oportunidade de ampliar meu círculo de relacionamentos, conhecer novas pessoas, conviver com gente mais jovem e de diferentes segmentos sociais. Uma maneira de enriquecer o meu cotidiano e me tirar de casa.

Para minha sorte (e ponha sorte nisso!), o professor é um jovem na faixa dos trinta anos e – simplesmente – seduz as pessoas que estão ao seu redor. Não é apenas a competência técnica e a simpatia que transmite em sala de aula. Seus olhos sorriem, brilham soltando faíscas de ironia. Ele se diverte atuando, emana boa energia e nos mantem despertos e ligados. Enfim, é encantador! E generoso. Tudo isso com o mais absoluto respeito.

Rede de Dormir Sol a Sol  RoyalpequenaClaro que minhas tardes de sábado se tornaram bem mais alegres e produtivas. Antes de MS, meu destino fatal seria os braços de Morfeu nos embalos da minha redinha.

Por ser professora e amante da didática e de dinâmicas de grupo, com especializações nestas áreas, é difícil alguma atividade em sala de aula me surpreender. Também por isso, procuro participar sem antecipar  “moral da história” dos exercícios. Faço questão de assumir integralmente o doce papel de aluna, com direito até de futricar no celular e levar carão do mestre.interrogacao

No último sábado, estávamos revisando tempos verbais, quando MS, para explicar o Pretérito Indefinido, lançou a seguinte pergunta:

O que você fazia no passado e não faz mais?

A primeira aluna questionada disse que não fazia mais a sesta; o segundo que não levantava depois das seis da manhã; o terceiro que não jogava mais voleibol…

Quando chegou minha vez, o professor enfatizou:

E você, Ida Lenir, o que você fazia no passado e não faz mais?

Tomei um susto com a forma inquisidora com que me foi dirigida a pergunta. O olhar fulminante do professor parecia que adentrava nos recôncavos mais íntimos da minha psiquê.

Silêncio sepulcral.

Por ter sempre a língua afiada, todos ficaram ansiosos a espera de minha resposta. Ora olhavam para o professor, ora para mim.

Meu rosto passou a erubescer. Um esgar de sorriso apareceu no rosto divertido do professor e contagiou a turma. Todos começaram a rir, a gargalhar. Até o menino de 13 anos!

E eu de língua travada. Em português e em espanhol.

A muda rubra.

Pronto. Haviam descoberto o meu segredo.silencio

 

 

Não me garanto

insightDepois de tanto tempo sem escrever, só recorrendo aos posts antigos e evitando qualquer reflexão mais apurada dos meus fazeres e sentires, um insight  me obriga a acessar este nosso cantinho. Claro que, junto, veio uma aura de melancolia que a orgia dos últimos dias tratou de instalar.

É assim, toda vez que me lambuzo nas experiências, dá-me a sensação de ressaca moral. Mesmo que não tenha nem de longe atentado nem contra a moral, nem contra os bons costumes. Pelo menos, não em  atos e atitudes. Mas nas divagações e nas palavras…  Pois é, parece que viajei na maionese dos sete pecados capitais nos últimos tempos. celular

Absolutamente todo exagero me causa esse incômodo mal estar que me retrai e me recolhe. Até usar demais o celular, o whatsapp ou o Facebook me deixam meio down.

Quando isto acontece, mergulho no trabalho. O trabalho é o único espaço/tempo que meu Superego aprova e, consequente, sinto-me útil e perdoada das minhas ingênuas ousadias.

Hoje me danei na análise de um artigo, sem me permitir divagar devagar na minha rede. Dei umas escapulidas de quando em vez e de vez em quando, assim como deixei todas as “janelas” das mídias abertas e o celular por perto.

Mesmo concentrada nas análises sociológicas, uma questão martelava minha cabeça e me inquietava: do que fujo? E entre quadros, tabelas e conceitos, veio a resposta.

Fujo da competição, da comparação, como o diabo foge da cruz e a Tigresa dos rojões. Por que? Por medo de ser rejeitada, por não ter estofo emocional para lidar com a rejeição.

Posso ir até o final das consequências com muita garra, desde que a solução das condições adversas caibam somente a mim, sem que eu precise articular com outras pessoas, cujas opiniões e recursos sejam diferentes e até antagônicos aos meus. Nas demais situações…

Entro em qualquer embate derrotada por mim mesma. Creio que é por isso que faço piada antecipada das minhas fragilidades, por isso me desqualifico, por isso justifico tanto minhas possíveis faltas, por isso tenho vivido com tanto medo. CAPSULA MULHER TOMANDO

O fato concreto é que eu não me garanto.  Em circunstâncias de todos os matizes que envolvam outro como concorrente. Da sedução aos amores. Do trabalho ao lazer. Da criatividade à reprodução.

Triste e dolorosa verdade. Sem solução.

 

Pausa para viver

As pessoas tem me perguntado porque parei de publicar textos semanalmente. Algumas pensavam que eu já tinha me metido em algum “relacionamento sério” e, por isso, não dava mais bola para o blog. Muitas entenderam que eu tinha passado da condição de abandonada despeitada para conquistada comprometida e com coisas mais prazerosas para fazer.DSC02777

Não é nada disso! Ou melhor, aconteceu um pouquinho de cada coisa, mas nada que me impedisse de vir escrever aqui se…

Than than than than…

Vou ser super sincera: estou sem inspiração e com preguiça. Simples assim.

Estou numa fase de viver sem refletir muito sobre o que me acontece. Quando começo a pensar muito, a analisar, a confabular, vou para pia, para o fogão ou para o tanque, não mais para o computador.  DSC02836

Na maioria das vezes, deito na rede, pego o controle remoto da TV e fico zapeando. Descobri que adoro programas sobre moda e outras baboseiras. Estou me permitindo levar a vida dos seres normais, sem intelectualizá-la demais. Voltei para dança de salão, para academia e para as prendas domésticas.

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Não sei quanto tempo isso vai durar. Fiz uma pausa para viver o tédio. Se vou acostumar-me a ele, são outros quinhentos.

Ah! O tédio não instiga a criatividade. Pelo menos, não em mim.

O importante a dizer é que mantenho minha visita diária ao espaço, leio e respondo aos comentários, olho as estatísticas de visitação, releio os posts antigos e faço a publicidade da página no Facebook (por falar nisso, que tal curtir?). Tudo com moderação apaixonada.DSC02835

Por que vocês não fazem o mesmo?

Afinal, esta casa está sempre de portas abertas para quem gosta de um bom texto. E eu adoro a companhia de vocês.

Devagar e sempre

Confirmei que minha motivação para escrever vem dos momentos difíceis, de carência ou marasmo. A felicidade me convida a curtir ela mesma, sem permitir tempo para reflexões. Os texto da alegria e da leveza tem a vida efêmera do momento sentido e some no ar.100_0293

Sempre soube disso. Meus escritos tem um quê melancólico, saudosista ou lamuriento… recheados de alguma ironia. Rio de mim mesma, rio do meu sofrimento e do meu mal estar. Porque não aguento manter o fúnebre estado de espírito por muito tempo. Na maioria das vezes, depois que passo o incômodo para o “papel”, volto renovada para viver a vida real.

Por isso essa parada longa; os laços me enlaçaram e até deram nós. Como boa capricorniana em seu inferno astral, foi duro romper com a disciplina e a rotina de postar às segundas-feiras. Fiquei agoniada, queria escrever, mas os temas que me instigavam a fazê-lo não condiziam com as festas de final de ano. Não quis cortar o barato de ninguém e menos ainda entregar-me de corpo e alma ao denso ou ao tenso momento de correria, de desvario e de consumo. Sem falar do sempre presente despeito.

Daí, calei.

Hoje volto, devagar, bem devarinho.

Com o firme propósito de não parar mais.

Todo novo dia é um dia novo

Hoje acordei com um gosto amargo na boca e uma preguiça de dar dó. Tudo por causa de dois caranguejos, alguns goles de cerveja e muita farofa com vinagrete. A mistura deu nisso e me exige uma dieta light para compensar os excessos da noitada.Caranguejo

Corpo e mente lentos propiciam reflexões nostálgicas. Ainda mais em época natalina. Talvez por isso tenha caminhado, em sonhos, pela Goiânia de minha infância, sentindo vividamente o cheiro da poeira que inundava o ar durante o ano todo. Invadiu-me uma saudade imensa daquela menina sonhadora, cheia de esperança e vitalidade, que acreditava ser capaz de mudar o mundo.

Não sei onde me perdi e me tornei essa pessoa tão enquadrada e conformada, tão presa aos aspectos materiais da existência. Embora a ânsia de viver e transgredir estejam intactas no fundo de minh’alma. É uma luta diuturna entre o dever e o querer, em que o primeiro ganha sempre. Cidadã exemplar.Foto só Ida 18dez2013

Entendi que a vida é isso, uma batalha interna diária de pequenas e grandes decisões pessoais sobre o outro, sobre mim e sobre a relação entre nós, em que, apesar de não parecer, surge algo novo, em que o velho se repagina e faz sentido. Marcas do que se foi, sonhos que vamos ter…

É preciso alimentar as utopias, sonhar com elas. É preciso querer o devir, planejá-lo e projetá-lo bem adiante. É preciso ter paciência para esperar com determinação para realizar.

É preciso, acima de tudo, estar feliz com o agora, com o que sou, conquistei e construí.

Olhar para trás, como aprendizado; olhar para frente, com esperança; e entregar-se ao gozo do instante.

Porque todo novo dia é um dia novo para recomeçar. Enquanto fluir o dom da vida.

Ressaca de DR

Todo mundo acha que discutir relação faz bem para o relacionamento. A frase pode ser redundante, mas não concordo com a afirmação. Acho DR um processo desgastante e, na maioria das vezes, inócuo do ponto de vista de construir ou resolver alguma coisa. 

Comumente as questões que são levadas à discussão não podem ser solucionadas pois envolvem visões de mundo diferentes, hábitos arraigados e valores antagônicos, elementos difíceis de mudar, seja por escolha e vontade pessoal, seja por imposição alheia.

Os percalços da vida são, talvez, as únicas oportunidades que temos para avaliar nossas atitudes e nos reposicionarmos, de fato. Mesmo assim, há extrema dificuldade de colocar em prática as modificações necessárias ou efetuar grandes transformações. Talvez se consiga implantar pequenos ajustes, que nem sempre atendem a expectativa da parte requerente.

Em geral, numa DR, cai-se no lugar comum: fica-se remoendo o passado, fazendo retrospectiva das faltas, das ausências, das mágoas e coloca-se à mesa toda a parafernália de sentimentos negativos vividos por culpa de quem está na berlinda. Puro desgaste.

O que fazer para não cair numa DR?

Não sei, é óbvio. Sei que preciso aprender, urgente, a ficar calada, porque de boa intenção o inferno está cheio, assim como de boas samaritanas como eu.  É imperativo olhar o que avalio como equívoco e guardar para mim a percepção. Ter a generosidade de sofrer sozinha a apreensão e deixar o outro viver da forma que quer. Afinal, não sou dona da verdade e minha experiência só serve e serviu para mim.

O que há de positivo em ficar dando pitaco na vida alheia, avaliando o outro e suas escolhas? Cada um que seja dono de seu destino, responsável pelos seus atos e pelas consequências deles. Não tenho controle sobre isso e nem a obrigação de assumir o ônus ou o bônus. Ninguém tem nada a ver com a minha angústia. Eu que a administre. É problema meu.

Realmente não consigo evitar uma DR. Quando vejo, já estou mergulhada numa qualquer e a alimento vorazmente com meu quinhão de lamentações e de historicidade. Ao final, estou de ressaca. Como agora.

E tudo continua como dantes no quartel de Abrantes.

Para ser sincera, nem tudo. Parece que, a cada vez que se despeja verdades e certezas, o amor sai um pouquinho machucado. Até que, um dia, ele pode morrer.

De tristeza, de decepção ou, simplesmente, de cansaço.